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sexta-feira, 28 de maio de 2021

"Passei três dias no deserto com o U2. Hoje, nenhuma banda tem todo esse tempo para fazer fotos"


Nos idos de 1981, Anton Corbijn era um jovem fotógrafo saído de uma cidadezinha holandesa rumo a Londres para trabalhar na prestigiosa revista de música New Musical Express. Escalado para uma reportagem com o Depeche Mode, então só mais um entre tantos grupos de tecnopop que pululavam na Inglaterra, ele não denotou empolgação ao registrar o quarteto para o semanário. "Não gostava do som deles", disse Corbijn a VEJA, em entrevista por videoconferência. À época, embora o fotógrafo tenha deixado o desprezo patente, as jovens estrelas do Depeche Mode não desgrudaram do seu pé. Convidaram-no insistentemente para outros trabalhos. "E eu sempre recusei", diz.
Desde então, o Depeche Mode cresceu e apareceu — nos anos 90, era virtualmente impossível fugir de hits como "Personal Jesus". Mas Anton Corbijn ganhou outra espécie de reconhecimento, mais seminal e duradouro: ele elevou a fotografia de rock ao estado de arte. Produziu fotos hoje clássicas de Bob Dylan e dos Rolling Stones — juntos ou em separado, como num impagável ensaio dos anos 90 em que Mick Jagger surge vestido como uma senhora. Testemunha ocular da história roqueira, ele clicou o endiabrado Johnny Rotten no auge dos Sex Pistols, além de Bruce Springsteen, David Bowie, Miles Davis, Nick Cave, Nirvana e muitos outros.
Antes de Corbijn, esses registros eram peças de promoção prosaicas. A partir de seus trabalhos, quase sempre em preto e branco e mostrando os artistas com rostos expressivos, o gênero virou coisa de gente grande — e ganhou até as paredes dos museus. "As cores são o reflexo da realidade, mas o preto e branco é a própria tradução da realidade", teoriza. Mal comparando, Corbijn fez pela fotografia de rock o mesmo que seu célebre conterrâneo Rembrandt van Rijn (1606-1669) realizou pela arte do retrato na pintura.
Parte inevitável de seu ofício é mergulhar na intimidade dos retratados — o que implica, nesse caso, em cair na estrada do rock’n’roll. Foi assim que Corbijn desenvolveu uma relação longa e proveitosa com inúmeros personagens convertidos em amigos.
Com o tempo, Corbijn — atualmente aos 66 anos — diversificou suas habilidades. Ele dirigiu videoclipes que definiram o formato, como o de um grande hit do Depeche nos anos 90, "Enjoy The Silence". E também fez capas de disco memoráveis, ainda nos tempos do velho vinil. Foi assim que estabeleceu relação simbiótica com outra grande banda, o U2. Em meados dos anos 80, Corbijn levou os irlandeses ao espetacular Parque Nacional Joshua Tree, na Califórnia, para o ensaio da capa de um novo disco então ainda sem título, o futuro 'The Joshua Tree'. "Passei três dias no deserto com o U2. Hoje, nenhuma banda tem todo esse tempo para fazer fotos. O álbum teria outro nome e, graças à minha ideia, a banda decidiu batizá-lo com o nome da árvore", relembra.
Para além da qualidade, é impressionante como Corbijn tem sido o homem certo no lugar certo na trajetória da música: do heavy metal ao grunge, passando pelo jazz fusion, fotografou expoentes de praticamente todas as vertentes dignas de nota nas últimas cinco décadas. Ele guarda um carinho especial pela banda pós-punk britânica Joy Division. Anos após fazer uma clássica foto do quarteto de Manchester descendo as escadarias do metrô de Londres, ele dirigiria Control: a História dDe Ian Curtis (2007), sobre o vocalista do grupo, que se suicidou em 1980. Também esteve próximo do Nirvana, pouco antes do final igualmente trágico do cantor Kurt Cobain, em 1994: foi Corbijn quem concebeu o desconcertante clipe de "Heart-Shaped Box", uma das últimas músicas do grupo de Seattle. "Eu achei que o vídeo ficou tão bom que fiquei com medo de não acertar no próximo. Recusei quando eles me convidaram para fazer outro clipe", revela.
Corbijn desconversa sobre seus segredos, mas entrega uma sacada essencial: não retratar o artista como ser todo-poderoso. "As imperfeições os tornam mais humanos", diz. Num retrato de Miles Davis em 1986, o trompetista surge com o rosto enrugado e as pupilas dilatadas: "Se você olhar a foto, verá meu reflexo nas pupilas de Miles. De certa forma, fiquei ligado a esse registro para sempre". Suas imagens também ficarão para sempre nos olhos dos fãs de rock.
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