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sábado, 25 de fevereiro de 2017

De 'U2 Three' à 'POP' com Steve Averill, designer das capas dos discos do U2


Steve Averill, designer das capas dos discos do U2 (além de ter sido quem sugeriu esse nome a eles), fala sobre seu trabalho com a banda:

"Eu estive envolvido na primeira sessão de fotos deles, direção de arte e design dos primeiros singles que eles fizeram para a CBS Ireland. A primeira capa que fizemos foi a do U2-3. Antes disso, fizemos um poster pra shows. Foi a primeira peça impressa em que trabalhamos juntos, e tudo se desenvolveu a partir daí. A foto para o primeiro álbum já tinha sido feita. Hugo McGuinness, um amigo da banda, havia tirado as fotos, então escolhemos uma delas que eu achei que funcionaria e essa foi a que a usamos, bastante clara e emocionante. Tiramos muitas fotos no estúdio enquanto eles gravavam o álbum. A capa foi uma decisão corajosa para um primeiro álbum porque o design não realça o nome da banda, e nem o título do disco aparece. É engraçado que o álbum seguinte, October, parece muito mais com um primeiro álbum, porque tem o nome bem grande e uma foto da banda na frente. Mas aquele primeiro álbum se tornou quase um ícone, associado com a sensação de inocência que eles tinham como banda. Para cada capa de álbum que fizemos juntos desde aquela, sempre há muita discussão sobre como as coisas funcionam e o que eles fazem, é um caminho muito sólido que temos seguido. Você sempre tem que surgir com algo que eles gostem, que achem excitante, que eles achem que representa bem sua música. Você não pode ficar preguiçoso, tem que estar sempre afiado. Graficamente e musicalmente você tem que se encaixar no que eles estão fazendo.
October foi obviamente a capa em que eles quiseram trazer a banda um pouco mais para a frente, então tiramos as fotos na região das docas em Dublin. Foi algo bem direto. Eu acho que havia um sentimento no Bono àquela altura de que ele gostava de algumas das capas de discos dos anos 60, onde o título aparecia na frente, como Bob Dylan e outros. Foi uma capa simples de fazer. Acho que, de certa forma, foi uma das capas mais fracas. Foi a capa certa para aquela época, mas podíamos ter escolhido fotos mais fortes.
War foi mais complicado, porque eles já tinham o título bem cedo e falavam muito em tentar conseguir autorização para usar fotos do famoso fotógrafo de guerra Don McCullin, ou alguém como ele. Encontrar a imagem certa era crucial. Falamos em procurar uma foto existente que representasse a ideia inteira. Mas isso te deixaria preso a um lugar, como o Oriente Médio ou Belfast ou outro lugar. Eu havia visto um documentário alguns anos antes sobre os nazistas que perseguiam pessoas no gueto polonês. Uma cena ficou gravada na minha mente: um menino parado contra um muro com as mãos atrás das costas, visivelmente aterrorizado. Isso é o que eu estava tentando capturar, essa sensação de medo. Inicialmente pensamos "que garoto vamos usar?" E então, porque já haviam feito uma capa com Peter Rowen e o conheciam, ele pareceu uma escolha óbvia. Suponho que, se eu tivesse me sentado e pensado um pouco mais, teria dito "não, não usem o mesmo garoto - fica muito parecido com aquela capa." Mas acabou ficando muito bom. A parte tipográfica imita o esquema de cores preto e vermelho das capas da revista Life.
Eu sabia que o título The Unforgettable Fire vinha de uma exposição sobre Hiroshima e eu entendia o seu significado. De fato uma das capas que eles me apresentaram continha uma vista aérea de Hiroshima, com um alvo desenhado. Mas nós sabíamos que não seria muito apropriado, então tentamos pensar em lugares ou épocas onde o fogo tivesse criado algo que fosse intrinsicamente belo e diferente. Então pensei em castelos e casas incendiadas, onde a estrutura remanescente tivesse presença e estilo. O fogo destrói uma coisa e cria outra. Consegui alguns mapas e num período de três dias visitamos alguns castelos com o fotógrafo Anton Corbijn. Nos demos conta rapidamente de que muitos dos castelos ficavam dentro de vilarejos, ou tinham sido transformados em celeiros, ou não eram assim tão bons para serem fotografados. O que aparece na capa do álbum é um lugar chamado Moydrum Castle no Condado de West Meath, e é na verdade uma antiga mansão, não um castelo.
The Unforgettable Fire definiu o tom para o The Joshua Tree, quase trazendo a presença física da banda pra dentro da paisagem. Acho que o título provisório para o The Joshua Tree era The Two Americas. O conceito do Bono era que o lugar onde o deserto encontra a civilização é um lugar bruto. Então inicialmente decidimos encontrar uma cidade fantasma que pudesse expressar isso - e achamos. A capa foi fotografada em preto e branco perto de Zabriskie Point.
Com o Rattle And Hum eu fui com a banda para Los Angeles e gastamos algum tempo discutindo ideias com eles e as pessoas na Paramount Pictures. Ficou óbvio pra mim bem cedo que não havia sentido em fingir estar fazendo alguma coisa, porque eu não tinha o equipamento em Los Angeles que eu tinha em Dublin e eu estava até contente com isso. Eu sabia como a capa iria ser, então gastei 10 horas pesquisando e editando imagens de shows ao vivo até encontrar aquela imagem do Bono com o holofote apontado para o Edge. A foto veio de Bullet The Blue Sky no show, onde o Bono queria passar a sensação de uma guerra com o holofote, e a música tinha um som pesado e cru. Isso veio até certo ponto de suas experiências quando esteve na América do Sul. Bem cedo ele sabia, mais ou menos, que essa era a imagem que ele queria mostrar. No fim, acabou sendo refeita em estúdio com o Anton Corbijn.
Achtung Baby foi o próximo, e representou uma imensa mudança em termos de reinvenção da banda. A sensação de ironia e divertimento, de brincar de ser um rock star, era a tônica do momento. E foi provavelmente um dos períodos mais extensamente fotografados para eles - Santa Cruz de Tenerife, Berlim, Marrocos. Começamos tentando achar uma imagem apenas que pudesse projetar o que eles queriam fazer e, passo a passo, essa imagem única se transformou em múltiplas imagens, de forma a refletir essa mudança completa. Decidimos então fazer uma montagem, com o maior número de imagens possíveis na capa. Existem cerca de 36 fotos no pacote completo, e isso causa uma impressão extraordinária. O sistema de grade foi introduzido, e depois seguido em ambos, Zooropa e Pop. Nós trouxemos o mesmo tema através de todas aquelas imagens em todas aquelas capas.
Achtung Baby representou uma imensa abertura para a forma como fazíamos as coisas. Zooropa aconteceu muito rapidamente. A turnê Zooropa se desenrolava na Europa e eles voltavam para o estúdio em Dublin com a frequência possível, quase a cada 2 dias, pra trabalhar nas gravações. Gastamos muitas noites no estúdio deles trabalhando em ideias, enquanto eles trabalhavam nas músicas. Era para ser um EP e depois virou um álbum, então o título da turnê foi sugerido. Inicialmente propusemos ideias baseadas na bandeira da União Européia, mas já haviam sido criadas uma ou duas capas com essa imagem. Em vez disso, criamos uma bandeira eletrônica usando computadores e imagens sobrepostas. Pegamos imagens da contracapa e sobrepusemos com títulos e outras coisas. Foi também a primeira capa que fizemos num Mac, então estávamos ainda experimentando com tecnologia informatizada. Ao longo dos anos, desenvolvemos um certo entrosamento com as pessoas. Você tem uma ideia do que eles estão pensando ou pra onde estão indo.
A próxima capa de álbum que fizemos para o U2 foi a do Pop, pra qual nós queríamos um design que de certa forma refletisse artistas pop como Andy Warhol e Lichtenstein, não como uma homenagem, mas mais como algo que eles teriam feito se tivessem a tecnologia de computadores que nós temos. Nós queríamos que o programa da turnê se expandisse além disso. Por si só aquela turnê era fenomenal, e a capa do programa se transformou num reflexo exatamente do que acontecia naquela época."

Do livro U2 Show - Tradução de Maria Teresa

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