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terça-feira, 27 de março de 2012

Booklet do DVD 'U2 ZOO TV Live From Sydney'

A arrebatadora sequência de abertura da ZOO TV ainda funciona como um Viagra virtual. Todos os que experimentaram esse acontecimento – e quando esse show chegava na cidade era um acontecimento – lembrarão do momento em que as luzes do estádio eram apagadas e o mundo inteiro ficava esquisito.
Imagens aleatórias tremeluziam em imensas paredes de vídeo, as coisas mais fantasmagóricas passavam como um raio, slogans bizarros ficavam impressos na sua retina, palavras de sabedoria pervertida e cenas tiradas da mente de um lunático te atacavam como uma porrada. Isso, você rapidamente se dava conta, não iria ser como qualquer coisa que você já havia visto antes. Tudo o que você sabe está errado, certo?
Cinco minutos de show, e o vocalista ainda não tinha cantado uma nota sequer. Mas ele tinha fumado um cigarro e saltitado insinuantemente pelo palco – como um lagarto muito à vontade vestido de couro falso – e tudo começava a fazer algum sentido.
A televisão, veja só, havia se transformado num problema que inspirava cuidados. O controle remoto da razão tinha escorregado para debaixo do sofá da sanidade, e os telespectadores estavam pagando o preço. Nós éramos os feridos mancando nessas guerras com hora marcada, vítimas de uma TV confusa. Então o que vamos fazer à respeito daquela caixa sinistra lá no canto? Xingá-la como Perter Finch no filme Rede de Intrigas, chutá-la como Travis Bickle, ou atirar nela como Elvis? U2, dê a deixa aí...
Sempre sem medo de fazer perguntas, o U2 atacou a televisão: a informação distorcida, a manipulação, a loucura disfarçada. Ao mesmo tempo, eles abraçaram a imprudência de surfar pelos canais de TV, e defenderam o direito de qualquer um de se sentar, confortável só de roupa de baixo, e assistir a esse lixo indescritível.
Até aqui, era tudo absurdamente pós moderno. Mas no coração de todo esse caos multimediático, haviam algumas das canções mais mágicas do U2. Os hinos penetrantes de The Joshua Tree, os lamentos insistentes e paranóicos de Achtung Baby, a política pessoal e determinada de The Unforgettable Fire, as melodias envolventes de Zooropa, e as canções de rock refinadamente inspiradoras de Rattle and Hum. E havia ainda One.
Em 1993, esse hino à desorientação e salvação tinha ganho uma qualidade universal, que podia reduzir um público de 60 mil pessoas a uma única alma. E que essa única alma estivesse normalmente soluçando em seu lenço era um testamento do poder de Deus que foi conferido a essa canção.
Na estrada e pelos ares, Bono se revelou no que o Edge descreveu como “um bando adorável de caras”. O vocalista se revelava nos personagens que representava no palco – The Fly, Mirroball Man e Mr. MacPhisto – e regularmente os levava pra beber umas e outras depois do show.
Para manter o espírito da ZOO TV, as atividades fora do palco freqüentemente provavam ser tão divertidas quanto o que se via no show. O delicado perfume da decadência pairava no ar e o extraordinário logo se transformou em cotidiano. Como jornalista na turnê, eu me lembro de coisas como carros italianos perigosíssimos, explosões em quartos de hotel, super modelos nuas, iglus infláveis, fotos Polaroid inacreditáveis, galões de cerveja Guinness, de dançar freneticamente e de rir tanto com Larry Mullen e Adam Clayton que as lágrimas escorriam por nossas pernas abaixo. Agora, graças a esse fantástico DVD, tudo está voltando à toda novamente. Belos dias aqueles, sem dúvida.
É claro que ninguém poderia afirmar com certeza que eles estavam fazendo história naquela época, mas olhando para trás hoje você fica imaginando se não foi dada ao U2 essa permissão...
Depois de 157 shows, a transmissão foi encerrada, e o ponto branco na tela sumiu pela última vez. Quando o fim se aproximava, perguntaram ao Bono, então com 33 anos, “pra onde você pode ir depois da ZOO TV?”
A resposta dele foi sucinta e ainda assim, com a passagem do tempo, provou ser particularmente pungente.
“Pra casa”, ele disse.

Adrian Deevoy, 2006-12-03

Tradução: Maria Teresa M.da Rosa (Forum UV Brasil)
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