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quinta-feira, 9 de abril de 2026

EP de Páscoa do U2... cruz, ressurreição e Salmos como resistência ao mundo... e talvez a libertação da maldição do comercial


Steve Stockman, autor do livro 'Walk On: A Jornada Espiritual Do U2', escreveu em seu blog Soul Surmise:

Uma análise faixa por faixa do EP de Páscoa do U2... cruz, ressurreição e Salmos como resistência ao mundo... e talvez eles também tenham se libertado da maldição do comercial!

Há alguns anos, declarei uma fraqueza no U2. Eles eram uma banda, pontifiquei, tão interessada em ser a melhor e a mais vendida do mundo que sua arte acabava comprometida. Sugeri que eles precisavam se afastar da tentação de serem os mais vendidos e começar a ser guiados simplesmente pela arte. Lançar músicas com menos conteúdo.
Durante a Quaresma de 2026, o U2 deixou de lado as estatísticas de vendas da indústria e priorizou a arte. A liberdade de lançar o EP 'Days Of Ash' e, apenas quarenta e quatro dias depois, 'Easter Lily', é uma notícia maravilhosa para os fãs do U2, intrigados por muito mais do que um álbum número 1.
Vinte e cinco anos atrás, escrevi um livro sobre o U2 - Walk On: A Jornada Espiritual do U2. Escrevi-o porque alguém visitou meu primeiro site e condenou a banda como descrentes ou, na melhor das hipóteses, crentes imaturos. Não há sinal de fé em seu trabalho, continuou ele, em profundo erro.
Eu estava irritado com a pouca atenção dada às músicas do U2, então esbocei a ideia de um livro e disse à minha esposa, Janice, que alguém precisava escrevê-lo. O U2 certamente era reservado quanto à sua fé, então uma apologia a essa fé por meio da música, dos shows e das entrevistas seria uma boa ideia.
Acredite ou não, naquele mesmo fim de semana, do nada, a Relevant Books me perguntou se eu tinha alguma ideia sobre escrever um livro. Então, sugeri o U2. "Nós também estávamos pensando nisso", responderam. E assim foi feito.
Vendeu muito por vários motivos, mas não seria necessário hoje em dia. Uma banda que lança um álbum na Quarta-feira de Cinzas chamado 'Days Of Ash' e outro na Sexta-feira Santa chamado 'Easter Lily', com títulos como "Scars", "Resurrection Song", "Easter Parade" e "COEXIST (I Will Bless The Lord At All Times)", me leva a crer que nenhuma apologia é mais necessária. Nada de reservado nesses lançamentos. Eles marcam o início e o fim dos dias da Quaresma cristã.
'Easter Lily' foi descrito como mais pessoal do que a crítica aos eventos mundiais presente em 'Days Of Ash'. Isso é certamente verdade. Para mim, foi menos imediata, mas mais rica após algumas apresentações. É como um retiro religioso onde se aprende mais quanto mais tempo se passa lá.
Musicalmente, é tudo U2 do início dos anos 2000. As guitarras brilham sob as complexidades líricas de 'All That You Can't Leave Behind' e 'How To Dismantle An Atomic Bomb'. Edge se exibe à sua maneira tímida, enquanto Larry Mullen Jr. apresenta ritmos inventivos e Adam Clayton cria grooves de baixo robustos. Bono? Bem, ele está em sua habitual mistura de versos e rimas, declarando ousadamente:

"Se o amor está no ar, vamos respirar fundo"

"Se eu soar ridículo, ainda não terminei"

A homenagem inicial ao seu colaborador criativo, o produtor Hal Willner, toca em luto e esperança, e eu adoro suas sugestões poéticas do paraíso:

"E mergulhe num sonho que te leva para o outro lado

Das músicas na sua cabeça

Atordoado como um musical

Músicas bobas que você não consegue esquecer

Além de bonito, além de belo

Onde quer que o estranho esteja desfilando

Onde quer que a música seja feita

Você estará lá"

Essa última frase faz alusão às palavras de Steinbeck sobre Tom Joad em 'As Vinhas Da Ira', uma justaposição da vida que acontece no céu e na terra.
"In A Life" é um poema que fala sobre amizade, sua importância em um mundo em guerra e o quanto aprendemos em nossas interações:

"Em uma vida

Enxergamos um vislumbre de alguém

Em seus olhos

Enxerguei um vislumbre de mim mesmo"

"Scars" então toca num tema que tem estado presente no U2 ao longo dos anos. "Original Of The Species" e "Get Out Of Your Own Way" sempre falaram sobre ser você mesmo. "Scars" é um apelo semelhante:

"São as suas cicatrizes que lhe dão beleza

Você é uma beleza

Não esconda suas cicatrizes"

Mas então Bono dá uma guinada brusca e nos encontramos na cruz da Páscoa, e as cicatrizes são as de Jesus, crucificado pela perigosa combinação de igreja e Estado:

"Coloque suas mãos sobre a minha mão

Sinta os pregos do Estado

Perfurando os inocentes

Para enchê-los de ódio

Quando o Estado clama

Por alguém para culpar

Criando leis a partir de mentiras

E vestes jurídicas a partir da vergonha

Coloque sua mão ao meu lado

Sinta os contornos do controle

Os espinhos prateados da amizade

Trocados por uma alma

O toque e o gosto de mim

Doce como vinagre"

Jesus mal está na cruz e Bono já está cantando "Resurrection Song", não detalhando os eventos do Jardim do Túmulo no Domingo de Páscoa, mas oferecendo cinco bons minutos de reflexão espiritual para levar para o seu retiro no deserto. Certamente a influência de Richard Rohr está presente:

"Ame extravagantemente e sem arrependimentos

Se existe algo melhor, eu ainda não ouvi

O amor está no ar, então vamos respirar fundo

Tema amar, meu amigo, e permaneça na morte"

Como a luz em "Song For Someone", "Resurrection Song" é a esperança à qual se apegar.

Ela se funde com a música "Easter Parade", impulsionada pelo baixo de Adam.

"Algo em mim morreu

Mas eu não tinha mais medo

Desfile de Páscoa"

Há medo novamente, mas agora vencido, e a trilogia da Páscoa termina com adoração:

"Kyrie Eleison

Kyrie"

Este cântico litúrgico grego, que significa "Cristo, tende piedade", me fez lembrar do "Gloria in excelsis Deo" de 'October' de 45 anos atrás.
A sensação adorável e a forma de expressão continuam até o encerramento, uma espécie de bênção. Em um paisagem sonora de Brian Eno que nos lembra o terreno de 'The Unforgettable Fire', nos encontramos cantando o verso de abertura do Salmo 34 - "Bendirei o Senhor em todos os momentos".
Na beleza sombria da adoração, somos transportados para Gaza e outras zonas de guerra ao redor do mundo, e com o salmista, não ignoramos a tragédia que nos cerca, mas nos apegamos a Deus, à misericórdia da Sexta-feira Santa e à esperança do Domingo da Ressurreição.
O fato de o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo cantarem "Bendirei o Senhor em todos os momentos", todos unidos por Abraão como seu patriarca, talvez nos leve à interrogação no final do título da canção. Há toda uma outra camada de significado. COEXISTIR é a grande questão, em vez da destruição mútua das civilizações.
Para mim, em um EP de belas canções de desenvolvimento lento, esta é uma maravilha surpreendente, ora Leonard Cohen, ora David Bowie, melancólica, dramática, espiritual e densa em resistência salmômica.
Exatamente o que precisamos na alma neste momento. Lírio da Páscoa, de fato!
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