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terça-feira, 21 de março de 2017

Trip Through Your Words: Bono e os livros que se tornaram as sementes para 'The Joshua Tree'


Tendo cantado uma vez a memorável linha "todo artista é um canibal, todo poeta é um ladrão", Bono nunca foi tímido quando se trata de reconhecer suas influências artísticas. Norman Mailer, Truman Capote, Flannery O'Connor, Sam Shepard e Raymond Carver estavam entre seus pontos de referência literária quando estava escrevendo as letras para 'The Joshua Tree'.
Em 2014, vinte e sete anos depois de seu lançamento sísmico, o quinto álbum de estúdio do U2, 'The Joshua Tree', foi considerado "culturalmente, historicamente, ou esteticamente significativo" pela biblioteca do Congresso dos EUA. O maior best-seller da banda de Dublin, revolucionários, (talvez) magnum opus (grande obra), foi selecionado para preservação no Registro Nacional de Gravações. Uma casa adequada para uma obra de arte musical que foi descrito por Bono na época como "nosso registro mais alfabetizado até agora".
O cantor estava falando tanto sobre a música, quanto a letra, mas as melodias e as palavras foram muito inspiradas por todas as coisas americanas. Na sequência do sofisticado, estilístico, de atmosfera européia 'The Unforgettable Fire' de 1984, o U2 decidiu mudar o visual se tornando mais sujo, vestindo chapéus de cowboy e imergindo-se profundamente no blues, folk, gospel e música americana de raiz.
À procura de insights sobre o vasto país que já tinha os abraçado um pouco (e os colocou com expressões sérias na capa da Time com o título 'Rock’s Hottest Ticket'), e com a ambição consciente de criar o equivalente aural do grande romance americano, Bono tinha ido ao oeste em sua leitura: passou a citar leituras de Flannery O'Connor, Truman Capote , Sam Shepard, Raymond Carver, Saul Bellow e Norman Mailer em entrevistas.
"Nós todos caímos sob o feitiço da América, não a realidade da TV, mas o sonho, a versão da América que Martin Luther King falou sobre", Edge explicou na autobiografia da banda, U2 BY U2. "Bono estava lendo Flannery O'Connor e Truman Capote. A língua dos escritores americanos, particularmente o atingiu, o tipo de imagem e qualidade cinematográfica da paisagem americana tornou-se um ponto de reforço".
No mesmo livro, Bono escreveu: "eu comecei a ver as duas Américas. A América mítica e a verdadeira América. Era uma época de ganância, Wall Street, apertar o botão, ganhar, ganhar, ganhar, não há tempo para os perdedores. Nova Iorque foi à falência. Havia uma dura realidade para a América, bem como o sonho. Então eu comecei a trabalhar em algo que, na minha cabeça, ia ser chamado As Duas Américas."
Aparentemente foi Bruce Springsteen que recomendou pessoalmente o trabalho do autor sulista Flannery O'Connor para seu amigo do rock. Como o cantor de Dublin, O'Connor era profundamente religioso, apesar de que sua própria marca de fé evitasse o fundamentalismo e fanatismo. Bono citou seu romance de estreia de 1952, 'Wise Blood' - descrito por seus editores em sua capa original como 'Um Romance em Busca do Pecado e Redenção' – como uma séria influência em 'The Joshua Tree'.
Em sua introdução para a edição de 10° aniversário de 'Wise Blood', O'Connor declarou que o livro é sobre "liberdade, livre arbítrio, vida e morte e a inevitabilidade da crença." Temas de redenção, racismo, sexismo e isolamento também aparecem através do romance. Como o U2 fez em todo o álbum.
O deleite de O'Connor em aforismos, sem dúvida também tiveram um apelo para Bono. Na verdade, algumas das coisas que ele disse soam como citações da boca dela em algum momento: "A verdade não muda de acordo com a nossa capacidade de tolerar isso." Ela também escreveu: "Onde não há nenhuma crença na alma, há muito pouco de drama. Ou se leva a sério a salvação ou não. E é fácil perceber que a quantidade máxima de seriedade admite a quantidade máxima de comédia. Somente se estamos seguros em nossas crenças veremos o lado cômico do universo."
Bono disse, mais tarde, para a Revista Propaganda: "eu nunca senti tal simpatia com um escritor na América antes."
O trabalho de O'Connor, juntamente com os contos de Sam Shepard e Raymond Carver, ajudou o compositor em sua busca para entender "primeiro as ações comuns e então os renegados, os troncos – aqueles à margem da Terra Prometida, isolados do sonho americano."
É interessante notar que, enquanto 'The Joshua Tree' é considerado o grande 'álbum americano' do U2, apenas três das canções lidam especificamente com o país (que também contém faixas sobre a epidemia de heroína de Dublin, a greve dos mineiros britânicos e os crimes da junta militar Argentina). Mas a influência de escritores americanos ainda é escrito amplamente em toda a letra.
O jornalismo também foi uma grande inspiração. Embora houvesse 30 canções na disputa para inclusão em 'The Joshua Tree', Bono queria uma canção "com sentido de violência, especialmente antes de "Mothers Of The Disappeared"."
Dois livros premiados sobre assassinatos americanos famosos, Truman Capote com seu 'In Cold Blood' (1966) e Norman Mailer com seu 'The Executioner’s Song' (1980), inspiraram a arrepiante penúltima faixa, "Exit" – que Bono descreve como "uma estória na mente de um assassino".
Capote e Mailer podem ter dado a ele a intenção assassina da letra, mas os contos esparsos e econômicos de Carver também presumivelmente foram uma inspiração. Bono, mais tarde, descreveu as letras como "só um conto mesmo, só que eu deixei de fora alguns dos versos porque eu gostei como uma esquete. É apenas sobre um cara que tem uma ideia na cabeça dele. Ele capta um pregador no rádio ou algo assim... e sai..."
A letra de um verso "as mãos no bolso / o dedo no aço / a pistola pesava / o coração dele, ele podia sentir / estava batendo, batendo / batendo, batendo, meu amor/Oh meu amor, oh meu amor / meu amor...",
"Eu nem mesmo sei qual é o ato nessa música" Bono disse mais tarde para a Hot Press. "Alguns acham que é um assassinato, outros um suicídio – e eu não me importo. Mas o ritmo das palavras é quase tão importante na transmissão do estado de espírito."
Infelizmente, "Exit" foi relatada por ter inspirado um assassinato real dois anos depois de 'The Joshua Tree' ser lançado. Em 1989, um esquizofrênico paranoico chamado Robert Bardo afirmou em um Tribunal de Los Angeles que "Exit" tinha inspirado ele a atirar e matar uma atriz de 21 anos de idade chamada Rebecca Schaeffer (cuja carreira se destaca em um ponto que fez uma breve aparição no Woody Allen Radio Days). Depois que ele a matou, tentou suicidar-se ao correr em uma estrada movimentada, mas foi capturado e preso.
A reivindicação de Bardo sobre o efeito de "Exit" no seu estado de espírito nunca foi devidamente levada a tribunal, já que ele alegou insanidade e rapidamente recebeu uma sentença de vida. Um resultado direto do assassinato de Rebecca Schaeffer, no entanto, foi a classificação depois de perseguição como sendo crime na Califórnia.
Na época, Bono disse que ele não se sentia responsável que sua canção tenha sido usada em uma defesa de assassinato, afirmando: "Eu ainda sinto que você tem que descer estas ruas em sua música. Se isso é onde o assunto te leva, você tem que seguir. Pelo menos na imaginação. Não sei se que quero ir morar lá embaixo. Vou dar uma volta de vez em quando e tomar uma bebida com o diabo, mas eu não vou morar com ele."
Claro, o U2 tem um longo histórico de tirar inspiração a partir de fontes literárias. No início dos anos 90, a sensação de cyberpunk em parte da Zoo TV levou a sugestão do romance cult de ficção científica de William Gibson, Neuromancer, com o autor até mesmo contribuindo para alguns projetos da banda em torno daquele período. Foi também a época em que Bono se tornou amigo de Salman Rushdie, autor britânico infame que teve o aiatolá Ruhollah Khomeini, então líder religioso do Irã, promulgando uma fatwa (édito religioso muçulmano) exigindo a sua morte, alegando que seu romance Os Versos Satânicos continha blasfêmias contra o profeta do islã, Maomé.
Embora eles não tenham tido uma amizade por muitos anos, o impacto de Rushdie sobre Bono na verdade data nos anos 80, quando o vocalista leu o livro do autor, The Jaguar Smile. O livro é endereçado a política externa de Estados Unidos na Nicarágua, um tema que também apareceu em 'The Joshua Tree'. Um momento muito famoso é o de Rushdie se juntando ao U2 no palco durante a turnê 'Zooropa' de 1993 enquanto ainda vivia na clandestinidade e era um visitante frequente na casa do vocalista em Dublin. Na verdade o autor observou uma vez que Bono irritou tanto sua segurança pessoal e o Gardaí, que acabou conseguido o levar para tomar uma cerveja!
Em 1991, entretanto, o U2 teve uma participação especial em longo capítulo no controverso romance de Bret Easton Ellis, 'American Psycho' (eles também são mencionados nos livros de Ellis 'Less Than Zero' e 'Glamorama'), em que Bono apareceu como o diabo para o assassino Patrick Bateman. Um ano mais tarde, na turnê Zoo TV em 'Achtung Baby', ele estava usando chifres como o personagem MacPhisto (e cumprimentando assim Rushdie no palco).

Do site: Hot Press
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