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sábado, 8 de agosto de 2026

65 Anos de The Edge - Parte II


The Edge completa 65 anos de idade. A Hot Press republica uma entrevista retrospectiva com o guitarrista, do 30º aniversário da revista, em 2007.

Nas turnês 'Elevation' e 'Vertigo', vocês revisitaram músicas do Boy: "An Cat Dubh", "The Electric Co", "Out Of Control", "I Will Follow". O jovem U2 tinha algo a ensinar ao U2 mais experiente?

Bem, fiquei impressionado com a sofisticação musical de algumas partes daquele primeiro disco. Claro que, naquela época, compúnhamos de uma forma muito orgânica, geralmente primeiro a música, depois as melodias e, por último, as letras. Mas instintivamente, buscávamos elementos que sentíamos que a música precisava, mudanças de tom e modulações estranhas que nós mesmos não entenderíamos. Mas agora, olhando para trás, a quantidade de ideias inovadoras naquele disco é impressionante. Ficamos realmente surpresos quando o revisitamos. Algumas músicas resistiram melhor ao tempo do que outras; não sei se gostaríamos de incluir um setlist inteiro do 'Boy' em nossos shows, mas há uma vitalidade e uma energia incríveis nessas canções, e isso conta muito.

Uma coisa que o álbum conseguiu foi capturar a essência da banda como uma adolescente intensa e desajeitada. Mesmo que algumas partes sejam um pouco atrapalhadas e desengonçadas, talvez essa seja a intenção.

É, acho que foi o Village Voice que disse: "Depois desse disco, essa banda deveria se separar, porque eles nunca mais vão fazer nada tão interessante quanto isso". E por todos os motivos, tudo nele era meio que uma busca, e errava o alvo, de forma espetacular em alguns momentos, mas tudo isso, de certa forma, contribuía para contar uma história, e a contava de forma muito eloquente.

Você deve ter assistido com certo espanto nos últimos anos a bandas como Interpol, Bloc Party e Arcade Fire explorando aquele som europeu invernal do início dos anos 80.

Sim, foi incrível perceber, há uns dois ou três anos, que aquele momento específico em que estávamos surgindo tinha se tornado repentinamente o novo espírito da época para o rock alternativo underground. Isso me fez voltar a ouvir Siouxsie & The Banshees, Joy Division e The Associates, e agora entendo o apelo. O blues estava tão saturado e desgastado como gênero, e esses eram acordes, progressões e ideias melódicas completamente livres dessa influência. De certa forma, se você fosse definir o que era aquele movimento, diria que era como rock 'n' roll sem o blues, sem a influência americana. Acho que a cena alemã provavelmente nos influenciou muito indiretamente, porque ouvíamos Eno, Magazine e bandas que ouviam Can e Neu.

A localização sempre foi crucial para os discos do U2. Vocês estiveram em Fez por algumas semanas recentemente.

Sim, acabamos de voltar.

Essa é a sua mais recente aventura psicogeográfica, tentando canalizar a atmosfera de um lugar para a música?

Acho que sim. Era uma daquelas ideias que não me saíam da cabeça. O Bono sugeriu isso há um bom tempo. Ele tem muitas ideias, e muitas delas não são recebidas com muito entusiasmo. Eu provavelmente seria o mais disposto a embarcar nessa, o Adam é bem tranquilo, o Larry é difícil de convencer na maioria das vezes. Nesse caso, para surpresa de todos, o Larry logo disse: "Acho que tem potencial nisso; parece uma boa ideia".
Então conversamos com o Brian Eno e o Danny Lanois sobre a possibilidade de virem compor conosco, o que é uma novidade, e também para nossa surpresa, os dois disseram: "Sim, ótimo, adoraríamos". Então partimos para Marrocos e nos instalamos em um pequeno riad, que é como um hotel construído em torno de um pátio central, e passamos algumas semanas incríveis trabalhando com Brian e Danny.
Estávamos lá durante um festival de música sacra em Fez, então vimos artistas incríveis. É tudo aquilo que nos tira da zona de conforto, e parece que prosperamos nessa situação, onde as expectativas são completamente ignoradas e estamos lá para explorar e descobrir coisas novas.

Você pode descrever um pouco da música que ouviu lá?

Porque a música do Norte da África não acabou indo para os Estados Unidos, na verdade é como uma versão diferente da música africana. A música que chegou aos Estados Unidos veio da África Ocidental, do Mali e de lugares assim. Você ainda pode ir lá e ouvir as raízes do blues e outros sons do R&B, o estilo de guitarra do Chuck Berry, que ainda está vivo e forte, originou-se de lá.
Então, quando você vai para o Marrocos, é um conjunto completamente diferente de batidas, ritmos e ideias. Quero dizer, eles poderiam realmente reivindicar a origem de todo o fenômeno da música trance. Isso acontece lá há séculos, a percussão e o groove continuam, levando todos a uma espécie de estado de transe. E para músicos como nós, cuja exposição é principalmente à música do Reino Unido e dos Estados Unidos, é incrivelmente inspirador ouvir esse conjunto totalmente novo e diferente de raízes e influências. E também existe uma enorme variedade; não é como se fosse apenas uma coisa só, há todos os tipos de músicas folclóricas diferentes, mas todas são incrivelmente rítmicas e têm seus ritmos e sons muito distintos. Então, realmente há muito para nós aí; é uma cultura muito rica.

Estar em um ambiente estranho também fortalece a mentalidade de grupo.

Como Danny diria, qualquer lugar que nos tire de casa é uma coisa boa, na opinião dele, porque as distrações de Dublin são um problema se você está tentando se concentrar em algo.

Qual a diferença de ter Brian Eno e Daniel Lanois contribuindo como músicos?

Bem, eles sempre contribuíram com a parte instrumental, então nesse sentido não é tão radical, mas acho que o fato de ser um projeto conjunto mudou um pouco o foco, e devo dizer que a química entre nós seis é extraordinária. É o quarteto, é a essência do U2, mas com um toque a mais com Brian e Danny.

Essas sessões de composição são para um álbum do U2 ou um projeto paralelo?

É um projeto do U2, e um dos luxos que nos permitimos é não ter que pensar exatamente no que será, como será finalizado ou quando será lançado. No momento, estamos curtindo tanto a ideia de fazer música por fazer música que queremos continuar assim enquanto for financeiramente possível. E claro, em algum momento teremos que sentar e dizer: "Bem, o que temos? É um disco, dois discos? Ou é um single de 12 polegadas?". E então partiremos daí.

65 Anos de The Edge - Parte I


The Edge completa 65 anos de idade. A Hot Press republica uma entrevista retrospectiva com o guitarrista, do 30º aniversário da revista, em 2007.

Quinze anos depois de gravar o videoclipe de "Mysterious Ways" em Fez, a terceira maior cidade do Marrocos, o U2 retornou à cidade para sessões de composição experimental para o novo álbum do U2, com Daniel Lanois e Brian Eno atuando como músicos colaboradores, e não como produtores.
O quarteto sempre valorizou muito a importância do local como influência crucial na gravação de sua música. 'The Unforgettable Fire' nasceu nos corredores e escadarias ecoantes do Slane Castle. 'Achtung Baby' tomou forma (ou se recusou a tomar forma) no Hansa By the Wall, em Berlim, o gélido salão de baile nazista que serviu de berço para álbuns de Iggy Pop, Bowie, Nick Cave, The Gun Club e Depeche Mode. 'POP', por outro lado, foi influenciado pela umidade tropical e pelas cores vibrantes de Miami.
The Edge ainda está eufórico com sua estadia no Marrocos, um espaço liminar que, por milhares de anos, serviu como porto e portal, um refúgio para criminosos, espiões e todo tipo de artista marginal, incluindo George Orwell, Tennessee Williams, Paul Bowles e William Burroughs.
"É África, mas parece uma parte diferente da África", diz Edge. "Esta não é uma cultura nova, tem milhares de anos. Aliás, em Fez fica a universidade mais antiga do mundo, fundada em algum momento no século VIII, o que dá uma ideia da antiguidade da cidade. E a arquitetura funciona de forma que tudo está dentro das muralhas. O souk é como o mercado, mas a Medina está cheia de ruazinhas minúsculas, mal dava para um burro com uma cesta nas costas, impossível passar um carro por lá. É uma escala e uma abordagem à construção totalmente diferentes, que se mantêm assim há mais de mil anos. Dependendo de onde estiver, pode perder-se durante semanas".

Peter Murphy: Para começar do início – você se lembra de quando a primeira edição da Hot Press foi lançada em 1977?

The Edge: Na verdade, me lembro de quando distribuíram de graça em Macroom, porque eu estava lá no show do Rory Gallagher e eles estavam com a revista por lá. Acho que o Rory estava na capa, então a princípio eu pensei: "O que é isso? É algum tipo de material promocional?". E aí eu me dei conta: "Nossa, é uma revista nova, que legal!". Gostaria de ter guardado meu primeiro exemplar, mas acho que ele se perdeu no caminho para casa.

A maioria dos influentes jornalistas musicais da época, como Nick Kent, Charles Shaar Murray e Lester Bangs, estavam a quilômetros de distância, em Londres e Nova York. Será que fez muita diferença ter um fórum local para que os jornalistas documentassem o que estava acontecendo na Irlanda?

Acho que fez uma enorme diferença, pois legitimou a cena local. Ver algo impresso é a prova de que você realmente existe fora da sua própria cabeça, de que há algo de que você faz parte, algo acontecendo, por mais subcultural que seja. Era real. A revista Hot Press foi muito importante para tornar isso real, não só para nós, mas para muitas bandas que surgiram naquela época, procurando shows e oportunidades de abrir para bandas visitantes, ocupadas em salas de ensaio por toda a cidade, trabalhando em músicas, discutindo se era legal usar uma gravata fina ou qual o comprimento ideal do cabelo. Não sei se foi coincidência, mas a Hot Press chegou bem a tempo de ser a voz, a narradora, digamos assim, da cena enquanto ela se consolidava.

As pessoas pensam em 1977 como uma espécie de Ano Zero do punk, mas ainda havia uma proliferação real de bandas de country rock ao estilo californiano e cowboys da cocaína.

Acho que víamos as coisas em termos bastante rígidos e monocromáticos. Ainda tínhamos bastante carinho por algumas bandas da geração anterior, mas isso era o maoísmo, a revolução cultural. Qualquer coisa que tivesse influências do período anterior a 1977 operava em um mundo completamente diferente do nosso. Não me desfiz dos meus discos do Rory Gallagher ou do Horslips, de forma alguma, eu ainda os ouvia e adorava, mas estávamos bebendo de uma fonte de água totalmente diferente.
As bandas com as quais provavelmente competíamos, ou com as quais compartilhávamos a mesma cena, eram DC Nien, The Prunes, The Atrix e Revolver. E eu suponho que The Radiators foram a primeira banda punk local, e suas influências eram até mais interessantes do que as de muitas bandas punk inglesas, de certa forma, porque eles se inspiravam em Can, Iggy Pop, The Stooges e MC5. Jornalistas se referem a esses artistas, mas acho que muitas bandas do Reino Unido estavam tentando ser uma mistura de New York Dolls e Rolling Stones, sem realmente se darem conta da influência alemã.

Os Radiators também tinham uma sensibilidade literária, com canções como "Kitty Rickets" e "Faithful Departed" que remetiam a Joyce e Behan.

Sim, com certeza. Havia coisas sofisticadas acontecendo. E como acontece com muita música dita provinciana, muitas vezes havia muito mais por trás disso do que a música que ganhava as manchetes em Londres.

A relação do U2 com jornalistas da Hot Press, como Bill Graham e Neil McCormick, parecia bastante próxima e informal.

Naquela época, em particular, a gente meio que fazia amizade com todos os jornalistas que cobriam a banda, e muitas vezes a gente se encontrava com eles para tomar um café. Bill e Neil eram amigos nesse sentido, assim como alguns dos jornalistas britânicos, os primeiros que cobriam os shows ao vivo. O mesmo acontecia com os nossos fãs. Como eram poucos, a gente acabava conhecendo-os pessoalmente e, em muitas ocasiões, eles dormiam no chão dos nossos quartos quando estavam em turnê com a gente. Outros tempos.

Até que ponto vocês usaram Bill Graham como uma espécie de conselheiro?

Bill foi muito importante para nós desde o início. É bem conhecida a história de que ele nos recomendou conversar com um tal de Paul McGuinness, que era amigo do Bill. Nós nos encontrávamos com ele de vez em quando e mostrávamos algumas coisas para ele, e de uma forma muito tocante, ele nos orientava, nos dava discos para ouvir que ele achava importantes para nós, coisas que talvez não tivéssemos conhecido antes. E eu acho que ele desempenhou um papel quase de irmão mais velho para a banda, e nós certamente apreciamos todos os seus conselhos e consideração.

Muitos dos seus escritos sobre a banda adotavam uma postura bastante contrária. Quando você estava criticando duramente o álbum 'Rattle And Hum', ele ainda insistia nas possibilidades do U2 e do blues. Por outro lado, quando todos aclamavam 'Achtung Baby' como uma reinvenção radical, ele não estava nem um pouco convencido.

Sim, Bill certamente se considerava muito exigente em todos os aspectos musicais. Ele não se impressionava necessariamente com o que considerava pose, ou com a maneira como a música era às vezes apresentada. Aliás, me lembro do Dark Space, o show de punk rock de 24 horas no The Project, não me lembro o nome da banda principal, eles eram do Reino Unido, mas Bill estava assistindo à apresentação comigo e simplesmente se virou e disse: "Isso é só moda londrina. Não tem nada de especial nisso. É só um senso de pose mais refinado, essa é a única diferença entre isso e o que está rolando em Dublin".
E ele estava certo, não tinha muito o que dizer, na verdade. Quero dizer, naquela época, a postura era importante, mas Bill sempre quis ir além disso, ver o que realmente estava acontecendo. Acho que 'Achtung Baby' é um ótimo disco, então talvez ele não tenha dado o devido valor na época, mas acho que ele sempre foi um pouco cauteloso com qualquer coisa que viesse até ele com uma grande história por trás. Ele só queria saber o que estava por baixo da superfície, não se importava muito com a aparência, a forma.

Por mais estranho que pareça, ele pareceu muito mais entusiasmado com o conceito da Zoo TV.

As pessoas podem achar que foi uma aberração – eu acho que provavelmente foi algo necessário, mas provavelmente representou o limite daquela oscilação específica. Essa era a questão na época: "Há alguma maneira de voltar atrás depois da Zoo TV e do 'Achtung Baby'?" É o álbum favorito do U2 de muita gente. Talvez seja o meu também. Mas podemos dizer que meio que voltamos daquela beira do abismo e criamos uma espécie de meio-termo em termos de assunto e tema. Mas isso também nos dá a liberdade de voltar a explorar esse território se quisermos.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Jordan Joy, filha de Bono, fala sobre sua entrada na música e os conselhos duros, porém necessários, de seu pai


O momento de "maturidade" de Jordan Joy está chegando mais tarde do que para a maioria. A filha mais velha de Bono, nascida na Irlanda e que completa 37 anos em 10 de maio, lançou seu single de estreia, "Don't Kill The Vibe", em 24 de abril, marcando o início de um novo e empolgante capítulo na vida da artista. 
"Eu escolhi o caminho mais longo, mas estou muito feliz por tê-lo feito", disse Joy à NYLON. "Eu precisava amadurecer para compor essa música. Sou grata por estar fazendo isso neste momento da minha vida. Acho que mais mulheres deveriam fazer isso em diferentes fases da vida".
Joy está participando por videoconferência de sua casa em Londres, devido a complicações com seu passaporte que a impedem de entrar nos Estados Unidos por enquanto. É uma ironia cruel, considerando que ela nem teria uma carreira musical se não tivesse deixado Nova York durante a pandemia, seis anos atrás, mas ela está encarando a situação com bom humor. Além disso, ela tem muito mais do que apenas um aniversário para comemorar — o single não só lhe rendeu uma menção honrosa na lista de melhores lançamentos musicais, como ela também tem um EP pronto para ser lançado e está trabalhando em seu álbum de estreia. Sem dúvida, este próximo ano já promete ser o ano em que tudo mudará.
Para sua primeira grande entrevista, NYLON conversou com Joy sobre Nova York, sua trajetória musical e os conselhos duros, porém necessários, de seu pai.

É muito apropriado que todos esses problemas com passaportes estejam acontecendo agora, porque "Don't Kill The Vibe" fala sobre sua relação complicada com Nova York.

Minha vida em Nova York terminou de forma muito abrupta. Morei lá por 11 anos. Durante a pandemia, voltei para casa para ficar com minha família durante o lockdown e pensei que voltaria em oito a doze semanas. Eu só levei algumas calças de moletom e achei que voltaria logo, mas aí fecharam a fronteira para estrangeiros por dois anos. Mesmo estando com visto na época, eu tinha que fazer quarentena no México ou em outro país por 14 dias para entrar nos EUA. Vivi com uma mala na mão por um ano e meio. E aí, depois de uns 18 meses, pensei: "Acho que vou ter que deixar Nova York para trás".
Foi interessante porque, quando eu estava compondo o álbum, eu não estava fazendo referência a Nova York deliberadamente. Mas aí, quando tudo acabou, percebi que muitas das sonoridades são referências a coisas que eu ouvia quando estava lá, ou a diferentes artistas que moram em Nova York, como LCD Soundsystem ou Yeah Yeah Yeahs. É como se fosse minha carta de despedida para Nova York e para a vida que eu levava lá, porque minha vida deu uma guinada de 180 graus quando eu fui embora. Soa muito parecido com o que eu ouvia quando morava lá.

Você acabou voltando para Nova York?

Não, agora moro em Londres. É a cidade mais estimulante do mundo. Foi lá que descobri minha criatividade e a encontrei de uma forma diferente. Me sinto muito conectada com a energia de lá.

Então você saiu de Nova York por 18 meses. Quando começou a compor música?

Cresci tocando piano clássico, mas nunca pensei em seguir carreira na área. Depois, estudei poesia na faculdade e consegui um emprego de impacto social. Eu estava criando uma empresa que ajudava as pessoas a se mobilizarem por causas que lhes eram importantes. Criávamos softwares que ajudavam as pessoas. Se você estivesse lendo um artigo sobre mulheres que não podiam ir à escola no Afeganistão, poderia doar para o Fundo Malala, por exemplo. Ou se registrar para votar em outra questão, ou entrar em contato com seu representante.
Era um trabalho muito empolgante, mas também muito focado. Eu não conseguia fazer mais nada durante os cinco anos em que o exerci. Quando saí de Nova York durante a pandemia, a empresa foi adquirida. Tantas coisas mudaram — onde eu morava, com quem eu namorava, meu emprego — e comecei a compor como uma forma de processar tudo isso. Eu só precisava me reconectar com a minha criatividade depois de tê-la explorado tão intensamente. Compor abriu um novo mundo para mim, algo que eu percebi que sempre esteve ali, esperando. Foi preciso esse momento de ruptura na minha vida para que isso acontecesse.

Como você se conectou com seus colaboradores?

Bem, inicialmente mantive tudo em segredo absoluto. Não contei a ninguém que estava compondo por um tempo. Eu realmente precisava desenvolver as músicas em particular, sozinha, e descobrir o que eu estava fazendo com elas. Depois, comecei a mostrar para as pessoas, a tocar com amigos. Tenho muitos amigos músicos, o que é uma grande sorte. Então conheci o Jackson Phillips, que se tornou um grande amigo e produziu o EP, e criamos nosso próprio ritmo e nossas próprias referências para o que estávamos fazendo. Mas essa música aconteceu de forma muito orgânica, no sentido de que simplesmente fluíamos no estúdio e íamos a uma locadora de VHS local e encontrávamos um filme antigo, como Corra, Lola, Corra, e colocávamos no mudo no estúdio.
Na verdade, compusemos com base em muito material visual, o que foi interessante e divertido. Isso também inspirou muitas das letras. Foi assim que tudo se encaixou — encontramos uma veia juntos. Gosto do som porque acho que tem muitos refrões melódicos envolventes, mas minha voz é bem melancólica, então se equilibra de um jeito estranho.

"Don't Kill The Vibe" foi a primeira música que você escreveu e finalizou?

Não. Essa foi a última.

O que te motivou a lançá-la primeiro?

Achei que era um bom ponto de partida em termos sonoros. Dali em diante, dava para explorar qualquer coisa. Era uma carta na manga e o projeto podia se definir a partir daí. Mas "LED Moon" foi a primeira música que compusemos juntos do início ao fim. Ficamos muito empolgados quando a escrevemos. Foi aí que percebemos que tínhamos algo interessante, algo de que gostávamos. Levou seis semanas para ser concluída. Não foi algo que pensamos demais.
Uma parte muito importante do processo para mim é aprender a não pensar demais, confiar na criatividade e simplesmente deixar fluir. Não dedicamos muito tempo a refinar essas faixas, apenas as deixamos como ideias frescas.

Você obviamente vem de uma família muito musical, mas eu adoraria saber mais sobre sua relação com a música. Você teve aulas quando criança? O que você ouvia quando era mais nova? Quem são algumas de suas maiores inspirações?

Tenho um gosto musical bem eclético. Quando era bem pequena, ouvia Spice Girls. Eu era realmente obcecada por Vanessa May, que era violinista clássica. Eu adorava piano. Cheguei a pensar em fazer faculdade de música para estudar piano, mas acabei não fazendo. Havia muita música rolando na nossa casa, muitos sons e coisas diferentes.
O primeiro disco que meu padrinho me deu foi o 'Hunky Dory', do David Bowie, e era a música mais incrível que eu já tinha ouvido. Depois disso, me apaixonei por Pearl Jam. Sim, eu adoro música com guitarra. Estou aprendendo a tocar guitarra agora.

Você tem mais músicas a caminho. O que pode nos contar sobre isso?

O plano é lançar mais algumas músicas neste EP. Também estou compondo um álbum no momento. Não sei quanto tempo isso vai levar, mas meu objetivo agora é lançar um álbum completo. Mas, por enquanto, estamos focando nas músicas e tentando ajudá-las a encontrar seu público. Faz apenas uma semana que lancei minhas músicas e tem sido incrível ver as pessoas ouvindo. Ainda parece surreal, de certa forma.
Suas músicas ganham uma nova dimensão quando encontram o público, e isso dá ainda mais impulso e inspiração ao projeto. Tem sido muito empolgante para mim receber feedback e ter uma relação com as músicas que vai além de mim. Acho que isso vai mudar muito minha composição e me ajudar a me desenvolver como artista.

Qual era o seu estado de espírito quando você estava trabalhando no EP?

Acho que eu estava meio que no modo "foda-se". Tem uma faixa no álbum chamada "Indigo Girl", que fala sobre abraçar sua excentricidade e sua estranheza, e simplesmente ser livre nisso. Era realmente sobre eu me abrir e precisar de mais liberdade na minha imaginação. Eu naturalmente escrevo músicas mais sombrias e alternativas. Mas com o clima atual, eu queria fazer algo mais alegre que me incentivasse a me sentir mais alegre também. Eu sou muito influenciada pelo meu humor quando se trata de música.

Qual foi o seu estado de espírito enquanto trabalhava no álbum?

Acho que ele vai ser um pouco mais alternativo em termos de letras. O que eu realmente quero fazer é algo que pareça vir do feminino, que seja imaginativo e íntimo. Quero levar as letras para um lugar um pouco mais estranho.

Quem é a primeira pessoa para quem você mostra uma música nova?

Tenho algumas pessoas de confiança. Uma delas é meu primo, Duncan. Ele tem um ouvido muito apurado e consegue captar bem a energia das coisas. Eu e meu irmão Elijah tocamos música um para o outro. Confiamos no ouvido um do outro. Ele é um ótimo conselheiro. Quando você está na fase de mixagem, você simplesmente enlouquece porque só se fala de decibéis, e ele senta comigo e me ajuda a entender tudo. Sou muito grato por tê-lo.
A outra pessoa é uma das minhas melhores amigas de infância, uma artista irlandesa incrível, Sorcha Richardson. Fomos colegas de quarto em Nova York, então ela entende todo o contexto deste disco. Ela é uma letrista e compositora incrível e me conhece como a palma da mão.

Como seus amigos e familiares reagiram à música até agora?

Inicialmente, ninguém sabia que eu estava compondo, então houve um certo choque. Mas depois eles disseram: "Ah, isso faz sentido. Você faz mais sentido como pessoa agora que te vemos dessa maneira". Isso tem sido muito legal. Me senti muito apoiada e encorajada a lançar meu trabalho, porque é preciso muita coragem para fazer isso. Acho que não conseguiria sem o apoio dos meus amigos.

Seu pai te deu algum conselho ou orientação enquanto você navega pela indústria da música?

Ele tem a própria experiência, que é muito singular. Nenhum outro artista terá essa experiência. Mas ele sabe dar um choque de realidade. Isso tem sido útil. Mas eu tento não aceitar conselhos, na verdade. São experiências diferentes e vêm de lugares diferentes. Eu vi o Eli trilhar seu próprio caminho e tomar suas próprias decisões, e isso deu certo para ele. O mesmo com a minha irmã Eve. Estou fazendo isso por mim também agora. E a indústria mudou tanto. Nem sei se a indústria em que ele trabalhava é a mesma de hoje. Mas ele chega com os choques de realidade, com certeza. E eles podem ser pesados.

O que você espera que os fãs absorvam dessas músicas e do EP?

Seja este EP ou o próximo, eu realmente quero que seja sobre se libertar das expectativas, fazer o que você gosta e dar um salto de fé. Se as pessoas estiverem ouvindo isso se movendo para longe de algo que deixaram para trás ou para algo que estão buscando, isso me deixaria muito orgulhosa do meu trabalho. Essa é a história que espero compartilhar. Espero que os fãs também encontrem um pouco de rebeldia nisso.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Fotógrafo Kevin Davies fala sobre o livro 'U2: In Camera 1991-1997'


U2.COM

'Um Instantâneo no Tempo...'

'Mais do que uma coleção de fotografias, um livro que serve como uma crônica duradoura da criatividade, resiliência e da magia duradoura de uma das bandas de rock mais influentes de todos os tempos'. Maddy Fry apresenta 'U2: In Camera 1991-1997' e conversa com o fotógrafo Kevin Davies.
Muitas das imagens do novo livro de fotos de Kevin Davies, 'U2: In Camera 1991-1997', nunca foram vistas antes. Elas cobrem as fases da banda na Zoo TV, Zooropa e Popmart e, como Davies afirma, um livro sobre o U2 nunca seria apenas sobre música – política, guerra e as vidas vividas entre elas vêm à tona.
Uma das viagens de Davies foi resultado de uma comissão para publicar fotos da estadia da banda na Bósnia após a Guerra da Iugoslávia. Embora os leitores estejam familiarizados com as ligações do U2 com Sarajevo, muitas das fotos coletadas aqui são inéditas, capturando momentos íntimos da vida fora dos palcos.
Davies teve acesso a todas as áreas, o que significa que ele pôde registrar a banda relaxadamente, desfrutando da companhia uns dos outros. Além de fotos familiares de gravações de videoclipes de músicas como "Even Better Than The Real Thing" e "The Fly", outras capturam os membros da banda em um modo tranquilo – dormindo, barbeando-se, fumando ou, em um caso, Bono fazendo poses contorcidas em uma rua de Berlim durante as filmagens de "Stay (Faraway So Close!)".
Com legendas praticamente ausentes, as fotos criam sua própria história, e ver os membros da banda em um modo tão humano e pé no chão é, para este escritor, bastante comovente. Foi a reação emocional de um espectador a algumas das fotos que levou Davies a uma jornada por partes desconhecidas de seu repertório – e a este registro único do U2 nos anos 1990.







Por que este livro? Por que agora?

Quando o lockdown chegou, comecei a arquivar, e um dos meus primeiros trabalhos foi com David Bowie e depois com U2. Comecei a pensar em fazer livros e exposições, e trabalhar de uma maneira diferente. Os anos 90 se tornaram um período de interesse.
Além disso, alguns anos atrás, um site italiano de fãs do U2 entrou em contato comigo para dizer: "Ah, vamos estar em Dublin na próxima semana". Coincidentemente, eu também estaria em Dublin, então combinei de me encontrar com Gabriel, do site, e sua parceira Elisa. Os dois adoravam U2 e mostrei a eles algumas daquelas fotos do arquivo que não tinham sido vistas. Elisa achou as fotos ótimas, mas Gabriel não falava inglês muito bem e percebi que ele achou as imagens bastante emocionantes. Perguntei: "Ele está bem?" E ela respondeu: "Ele simplesmente adora essas fotos". Depois disso, pensei: "Bem, talvez eu realmente devesse fazer este livro".

Então, qual a porcentagem que nunca tinha visto a luz do dia?

Provavelmente 60, 70%. Coisas como aquela sequência do Bono atravessando a rua... só uma ou duas fotos disso já foram vistas antes. E isso só porque eu as publiquei no Instagram.

Da qual você realmente se orgulha?

No estádio em Las Vegas, as escadas têm rodinhas e são apenas uma série de degraus subindo em direção ao céu. Eu simplesmente adoro isso. Fazer um show novo que nunca tinha sido feito antes... aquele telão nunca tinha sido feito antes e acho que vi isso como uma metáfora para uma espécie de ato de fé. Você sobe aqueles degraus e precisa confiar que tudo vai dar certo.
Adoro a foto do Bono se barbeando. É algo bem normal de se fazer. Uma das minhas imagens favoritas é aquela em que o Bono está atravessando a rua. Ele parece uma estrela-do-mar.

Você os viu em momentos bastante vulneráveis. Como vocês construíram confiança?

Acho que a banda entende que, se eles estiverem engajados com o fotógrafo, todos aproveitarão ao máximo uma sessão. E eu presumi que, se eles estivessem insatisfeitos, me contariam, mas também... eles são muito divertidos!
Com a foto do Bono dormindo em Nice, eu soube que o voo estava atrasado e ele tinha desaparecido. Coloquei a cabeça para dentro da porta e havia outras duas pessoas no quarto, um segurança e um membro da equipe de gerenciamento. Olhei para o segurança e ele acenou para mim, e interpretei isso como "ele está bem comigo fazendo isso", então tirei duas fotos. E é o tipo de coisa que eu nunca teria publicado sem a permissão de alguém. E eu realmente gosto disso como foto. Adoro o fato de o Bono ter um copo d'água no chão e os sapatos lado a lado. E ele está tirando uma soneca revigorante. Acho que é algo perfeitamente normal de se fazer, mesmo que algumas pessoas pensem que um astro do rock não dorme!
Trabalhar com o U2 me ensinou que eu gosto de fotografar no lugar onde as pessoas moram ou trabalham, porque geralmente elas se sentem mais à vontade lá do que no estúdio.

A foto em Sarajevo das duas pias com papel toalha, mas sem tampões... o que levou a essa escolha criativa?

Naquela situação anormal, naquela zona de guerra, gosto da ideia de algo completamente normal e ainda me faz rir que nunca haja um tampão – você tem que colocar algumas toalhas de papel lá. Já vi isso antes. Fui à Rússia no final dos anos 80 e alguém me disse: "Você deveria levar um tampão de pia". Achei que estivessem brincando, mas levei uma tampão de pia. Os hotéis não tinham nenhuma. Pensei: "Que porra é essa?". Foi a mesma coisa na Bósnia. A foto é um pouco de normalidade entre as fotos de todos os soldados no estádio.

Você acha que seria mais difícil ter uma experiência como essa agora?

O acesso é diferente agora. Em termos de promoção, não vejo muitas imagens de músicos em estúdios de gravação ou coisas relacionadas ao processo criativo.
Por outro lado, parece que podemos nos conectar diretamente com os artistas através das mídias sociais, muitas vezes de uma forma pessoal. Acho que isso é bem diferente de uma visão externa, muitas vezes vinda de um completo estranho.
No prefácio do livro, Gavin Friday, o diretor criativo da banda, menciona que a PopMart Tour pode ser frequentemente subestimada, mas o que é notável nas fotos do livro é "como o U2 parece tão confortável e relaxado consigo mesmo". Ele diz: "Eles se saíram muito bem"... e eu concordo.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

De MacPhisto Para Você: A Entrevista


O site MacPhisto's Den traz a entrevista de Mr. MacPhisto para a revista Select como o Vilão de 1993!

Você tem visto muito seu amigo Salman Rushdie ultimamente?
"A gente acaba brigando com o biógrafo..."

Quantos anos você tem?
"A idade é a assessora de imprensa do cirurgião plástico."

Você acredita em Deus?
"Ah, sim. Éramos tão bons amigos. Isso foi há um tempo, mas minha porta está sempre aberta."

O que te leva a seguir uma carreira no rock 'n' roll tão tarde na vida?
"Sou louco por causas perdidas."

Qual a coisa mais legal que você já fez?
"Eventos beneficentes... não todos, mas alguns."

Você tem uma mensagem de secretária eletrônica?
"Não tenho secretária eletrônica. Não atendo chamadas. Só faço. Só ligo para dizer que te amo."

Costuma-se dizer que o diabo tem as melhores músicas. Quais são as suas favoritas?
"Ah, sim, eu estava lá no começo... com a velha ideia de combinar ritmos africanos com melodias europeias, uma combinação bem bacana, não acha? Bem, pegou e eu não olhei para trás desde então. Death metal? Ah, qualquer coisa tão óbvia não pode ser perigosa. Brotherhood Of Man faz um trabalho muito melhor para mim."

Se você tivesse que recomendar uma marca de comida para viagem, qual seria?
"Hot Chocolate sempre foi alta gastronomia para mim."

Você fuma?
"Sim, mas eu não inalo."

Você colocaria um piercing no corpo?
"Eu tenho um par de chifres... tridentes estão um pouco fora de moda agora, um pouco desajeitados. Minha principal preocupação é estar à frente do meu tempo. É importante interagir com os jovens, afinal, você pode ser expulso de uma festa por usar os sapatos errados, pelo amor de Deus, então o tridente teve que sair. Mas nunca se deve subestimar o valor de um símbolo visível. Piercing corporal, hmmm... Eu gosto de fazer, em vez de ter que fazer em mim. Tenho que tomar cuidado para não exagerar, ou vou acabar com um público cult muito menor, e isso seria uma completa perda de tempo."

Conte uma piada.
"Talvez eu tenha que me lembrar das últimas palavras de David Koresh: 'Está calor aqui ou estou ficando louco?' Uma pergunta que já me fiz muitas vezes."

Você gosta do Novo Brutalismo no cinema?
"O medo do Diabo leva à adoração ao Diabo."

O que você acha do Bono?
"Não tenho vontade de dar a ele meu espaço nesta coluna! Mas devo dizer que tenho tentado suavizar um pouco a situação. Trazendo um pouco de glamour ao show, um pouco de showbusiness... brio, como chamam na Europa. Basicamente, sou um artista. O Bono está se saindo bem, mas ainda não chegou lá. Ele é sério demais? Claro que não. Ele é fã do Pet Shop Boys! Eu o descreveria como alto, magro, bonito, com um QI absurdo e, além disso, engraçado. É o que sempre digo a ele. Basicamente, ele é um gênio incompreendido, não acha?"

Heróis e vilões de 93?
"Fico feliz em confraternizar com qualquer pessoa. Não sou esnobe. Afinal, os vilões estão simplesmente fora de sintonia com a lei e os heróis simplesmente têm um toque popular. Costumo dar uma passada em algum lugar, mesmo que minha influência não seja óbvia. Sabe, quando você vê políticos acenando na TV ou em fotos para a imprensa? Muitas vezes eles acenam para mim. Você ficaria surpreso com o quão longe eu consigo chegar."

Como é a sua casa?
"Uma mansão sem portas."

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Aquela bandeira branca parecia ridícula mesmo quando a levantamos pela primeira vez em "Sunday Bloody Sunday", na turnê de 'War'


Bono está acostumado a comandar o U2, em estádios lotados e a falar com lideranças mundiais sobre direitos humanos, como o combate ao HIV. Mas ele nunca tinha participado do Festival de Cannes. Por isso, recebeu dicas da sua filha Eve Hewson, que é atriz, na noite anterior às rodadas de entrevistas que fez para divulgar o filme 'Bono: Stories Of Surrender', exibido nas Sessões Especiais em Cannes e que estreia no Apple TV+.
O longa é baseado na autobiografia 'Surrender 40 Músicas, Uma História' e na turnê de shows de promoção do livro, 'Stories Of Surrender: An Evening of Words, Music and Some Mischief'.
"Ela me disse que eu tinha de vir com tudo, que eu precisava aparecer, ser grato, dar o meu melhor", afirmou. "Mas eu não sou ator. Sou essa pessoa que sobe no palco e usa seu desconforto ou qualquer outra coisa que esteja sentindo para conseguir cantar para as pessoas. Disse a Eve que não sabia se conseguiria".
Mas ele conseguiu. Conquistou os jornalistas na mesa-redonda e, na sessão de gala do filme, encantou a todos, puxando um coro de "Pride (In The Name Of Love)".
Em 'Bono: Stories Of Surrender', dirigido por Andrew Dominik, o cantor de 65 anos mescla canções repaginadas e ressignificadas com comentários e reencenações de passagens de sua vida, especialmente da relação com a mãe (que morreu quando ele era adolescente) e o pai, além de ser uma carta de amor à mulher, Ali, com quem começou a namorar ainda adolescente. O casal tem quatro filhos.

Por que decidiu escrever, falar e encenar sua vida na sua idade?

Em algum momento, se você vai desenvolver a armadura necessária para se tornar famoso, tem o dever de retirá-la e simplesmente dizer: "É isso que sou". Até mesmo a coisa de mudar o mundo é uma tentativa de impressionar meu pai. Todos nós somos feitos desses relacionamentos. Gostamos de pensar que somos carregados pelos livros que lemos, e somos, sejam eles textos sagrados, ou manifestos políticos. Mas, na verdade, por que você é cantor? Eu tenho que responder. Estou preenchendo esse vazio deixado pela minha mãe me abandonando. "Mas ela não te abandonou, ela apenas morreu". Quando você é criança, não vê dessa forma. E tem o pai. Quer dizer, é um clássico.

O que você descobriu sobre si mesmo que não esperava com o livro e o show?

Que, no fundo, sou uma pessoa muito superficial. O coração é enganoso acima de todas as coisas. O artista é particularmente enganoso. E é por isso que, nos créditos, temos a música "The Showman". Eu vou repetir uma frase do produtor Jimmy Iovine que gostaria que fosse minha: "Tenho baixa autoestima o suficiente para chegar onde quero ir". Acho que foi isso que descobri: que a insegurança é um motor para um artista.
Eu queria encontrar uma linguagem que fosse uma teoria de campo unificada para a fé, para a minha religiosidade. E eu brinco sobre isso, colocando o Messi em "Messiânico", porque não estamos interessados em estrelas do rock se elas não tiverem um pouco disso. Eu também queria encontrar uma linguagem onde eu pudesse, acima da religião, chegar a essa conversa onde eu acho que a arte vive, a música vive, a longevidade e os relacionamentos vivem. E então transformar tudo isso em uma canção de amor para minha mulher.

No filme você fala sobre esperança. Não sei se você tem esperança hoje em dia?

Essa é a pergunta certa. A acadêmica albanesa Lea Ypi disse que se você tiver a chance de ter esperança, é um dever. Porque a maioria das pessoas não tem. O filme chama-se 'Histórias De Rendição'. A palavra rendição soa absurda em um momento em que o planeta parece determinado a se auto imolar. Estamos mais perto da guerra mundial do que em qualquer outro momento da minha vida. E aqui estamos nós falando sobre não violência no tapete vermelho em Cannes, um lugar muito seguro para se estar. E aquela bandeira branca, eu sei que parece ridícula. Parecia ridícula mesmo quando a levantamos pela primeira vez em "Sunday Bloody Sunday", na turnê de 'War'. Quando a Irlanda estava perto da guerra civil, e nós simplesmente sabíamos ingenuamente, talvez instintivamente, que a não violência era o único caminho a seguir. E, claro, quem eu tenho no meu ouvido? John Lennon. Quem eu tenho no meu ouvido? Martin Luther King. Quem eu tenho no meu ouvido? Joan Baez. E a não violência foi de fato como a Irlanda alcançou a paz. É absurdo. Mas era ainda mais absurdo há dois anos.
Porque agora as pessoas estão começando a se perguntar isso. As pessoas na Ucrânia que estão lutando por suas vidas querem voltar à não violência. Há membros das Forças de Defesa de Israel (IDF) que não querem se defender do Hamas. Há pessoas que foram forçadas pelo Hamas a servir a esse extremismo religioso. Mas todos sabemos que a palavra islamismo significa rendição. Algumas pessoas dizem que significa submissão, mas eu acredito que não, rendição a Deus. Todas as grandes religiões, cristianismo, judaísmo, são sobre rendição.
Temos que superar a violência. Essa é a minha posição. Eu a defendi quando tinha 23 anos e fui ridicularizado. Tudo bem. Mas, como eu disse, John Lennon estava disposto a parecer ridículo pela paz. Não estou dizendo que a música do nosso U2 poderia chegar perto dos Beatles. Mas seguirei o exemplo dele.

No filme, você fala sobre como é difícil se render se você nasceu com os punhos erguidos, acho que é o que você diz sobre si mesmo. Onde estão esses punhos hoje em dia? Você ainda tem esse lado?

Infelizmente, o inimigo não desaparece. E você começa a perceber que o maior oponente que vai encontrar será a sua própria hipocrisia. Na minha vida, não estou mais lidando com paramilitares. Mas ainda estou enfrentando isso. No livro, eu conto como escrevi, aos 22 anos: "Não posso mudar o mundo, mas posso mudar o mundo em mim". E agora, mais velho, escrevi: "Talvez eu possa mudar o mundo, mas não posso mudar o mundo em mim". Essa é a humilhação desta escrita. Você percebe que passa por tudo isso, chega aos 65 anos e ainda está sobrecarregado com o seu próprio... seja lá o que for. O ego fica com má fama. Precisamos de um pouco de ego. Mas não é tão simples quanto ego.

O filme e o livro falam principalmente sobre o seu pai. Você é um pai totalmente diferente para os seus filhos?

Espero que sim. Eu disse aos quatro filhos, quando cada um chegou à adolescência: "Agora vocês devem brigar comigo. Não nos falamos por um tempo, ou resmungamos um para o outro. Passamos um pelo outro. Mesmo as meninas, vocês ficarão magoadas por eu não entender vocês e eu realmente não vou entender. E aí, quando vocês tiverem 20 anos e talvez quando tiverem seus próprios filhos, aí sim, voltaremos a ficar juntos. Esse é o caminho normal. Esse foi o meu caminho, que presenciei na nossa vizinhança enquanto crescia. Ou poderíamos simplesmente pular isso". Os quatro disseram: "Vamos pular isso". E tem sido verdade até agora, até este filme.

Achou desafiador fazer esse tipo de performance que vemos no filme? É um pouco diferente de fazer shows de rock. Mas, além disso, o que você aprendeu com essa turnê e com esse filme?

Ficando um pouco famoso, invariavelmente você se torna uma caricatura. A fama gosta de caricaturas. Gostamos de personagens desenhados rapidamente, super-heróis.
Este é um filme de super-heróis. Mas eu queria um pouco de sombreamentos para resgatar minha identidade da minha família, dos meus amigos, até mesmo dos fãs. As pessoas sempre dizem: "Por que você não conta piadas no palco?". Mas um show do U2 não é lugar para piadas. Mas sentado no lounge Sorrento, no pub da minha infância, eu pude simplesmente ser eu mesmo. Foi uma libertação.
Em um nível mais sério, eu pude ser mais verdadeiro como artista. Andrew Dominik me empurrou. Ele dizia: "Não acredito em você" na cena em que me despeço do meu pai. Tive que me despedir do meu pai cinco vezes.

Seu comprometimento político prejudicou sua carreira?

Ah, sim, mas tudo bem. Esse é o trabalho. Eu forcei a banda e forcei nosso público ao limite. Mas astros do rock são bons em pose. Minha postura tem sido uma das menos descoladas. Ser visto com George W. Bush quando ele estava prestes a invadir o Iraque não foi uma boa imagem para mim e para nossa banda, e nos custou caro. Mas eu direi que também não foi uma boa imagem para ele com seu público. Só que juntos estávamos trabalhando no que acabou sendo a maior intervenção em saúde da história da medicina na época. Chama-se PEPFAR e combate o HIV/AIDS. Me contive e não o critiquei em público porque ele estava prestes a salvar, como se viu, 26 milhões de vidas até hoje. E esse imperador apareceu e cortou esses sistemas de suporte de vida. Não foi apenas um aviso de que a América não estará aqui se você não votar e morar longe, mas, na verdade, eles terminaram com os apoios com alegria. Um sul-africano branco e rico agora é o responsável pelos sul-africanos mais pobres e negros não receberem seus medicamentos antirretrovirais. Isso é uma espécie de retorno do apartheid, eu diria.
Embora o que eu prefira dizer seja, quando se trata do viajante espacial: 70% do mundo está livre do HIV/Aids desde o pico de 2004. Imaginemos que sejam cerca de 2,5 milhões de mortes por ano. Caiu para cerca de 600 agora. Então, você tem 70% de erradicação deste vírus que causou tanta infelicidade. É um pouco como chegar a Marte, dar uma olhada e dizer: "Vamos voltar". É tão idiota. Não consigo acreditar que, tendo conhecido Elon Musk, ele seria tão insensível. Não acredito que ele esteja pensando direito. E creio que as pessoas ao seu redor, que são especialistas em saúde global, precisam explicar o que isso vai causar.

Você acha que as pessoas vão ouvir suas músicas de forma diferente depois de ver o filme?

É por isso que fizemos o filme. Quando você ouve essas músicas, elas se tornam músicas novas. Nós as escolhemos porque são conhecidas, mas também porque precisávamos contar uma parte específica da história, como o absurdo da bandeira branca, a questão sectária com "Sunday Bloody Sunday", depois a África com "Where The Streets Have No Name". E tínhamos muitas músicas que poderíamos ter escolhido, mas é por isso que desmontamos ou descobrimos outras músicas dentro delas. Acho difícil olhar meu cabeção na tela. Mas cantei muito em "Sunday Bloody Sunday". Não sei o que aconteceu naquele momento. Isso soará desrespeitoso com a mais intocável das cantoras, mas eu me senti como Nina Simone. Senti a influência dela em "Sunday Bloody Sunday". Encontrei esses outros personagens e fiquei feliz, além de me reencontrar. O U2 voltará ao punk rock e ao rock and roll, é claro. Mas essa intimidade parecia, de certa forma, mais desafiadora, mais reveladora.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Bono entrevistado para o programa Conversa com Bial da Rede Globo


O programa Conversa com Bial da Rede Globo exibiu uma entrevista especial com Bono, que marcou o programa de número 1.500.
Anos depois de fazer um profundo mergulho na própria história e lançar sua autobiografia 'Surrender: 40 Músicas, Uma História', o cantor falou sobre sua jornada de autoconhecimento, relação com a família e com os fãs.
Perguntado sobre qual é a face mais verdadeira que encontrou em seu projetos autobiográficos, Bono falou sobre a relação com o showbiz e o impacto da fama.
"Sim, o ego explode, mas ele também implode e acabamos nos encontrando. Me saio muito bem fazendo papel de glamouroso quando preciso. No showbiz eu posso ser um showman, mas um dos rostos que encontramos no corredor de espelhos é de autodepreciação. E estou sendo sincero em relação a isso. E talvez seja porque acabamos percebendo que não somos, e, no meu caso, com certeza eu não sou um homem que alcançou o sucesso sozinho".
Sem receios, o artista destacou a importância da esposa e dos parceiros de banda em sua vida e carreira: "Se eu tenho dons, eu nasci com eles, e o que fez com que eu pudesse expressá-los foi o Edge, o Adam, o Larry, foi a Ali. A história pela qual eu levei o crédito e assinei embaixo do título, 'Surrender', eles escreveram também, porque eles me escreveram".
Bial definiu o documentário 'Bono: Stories Of Surrender' como um "inventário de dúvidas", o que contrasta com a imagem confiante que o artista demonstra. Em resposta, o cantor refletiu sobre como sua autoconfiança vem de sua intimidade com a plateia, em especial com os fãs brasileiros.
"Quando saio para falar com os fãs, principalmente no Brasil, principalmente com esse sentimento latino que existe, eu me sinto mais como eu mesmo do que quando estou, às vezes, nos bastidores. Edge disse ao Andrew: 'Se você acha que vai captar o Bono nos bastidores sendo ele mesmo com uma câmera, muitos já tentaram e não conseguiram'."
Ele falou da relação difícil com o pai e como o perdão transformou a própria voz.
"Eu fui um garoto difícil de lidar. Só queria ter pedido perdão enquanto ele estava vivo, mas só aconteceu anos depois. Enfim, fui para uma capela local aqui na França, onde estou agora. Era uma capelinha vazia, e eu pedi perdão a ele. Eu canto para impressionar você até hoje. Saí daquela igreja um pouco diferente. Deixei algo para trás, e isso libertou minha voz. Estou cantando como um passarinho. Até nas gravações recentes com o U2, eles disseram: 'De onde está vindo essa voz?'. Então ainda estou nessa jornada para ser um cantor. Não é como se eu tivesse tido o meu auge".
No registro é possível ver o músico observando o trio elétrico comandado por Ivete Sangalo, que aproveitou a presença do músico em um camarote para homenagear sua banda.
Ao rever as imagens de sua passagem pelo Carnaval de Salvador em 2006, Bono fez um breve relato sobre a experiência, dizendo:
"Nós viajamos para a Bahia com o Quincy Jones, e ele disse: 'Cara, você precisa ver como os brasileiros fazem… eles vão te ensinar o que é Carnaval. Essa é a origem do Carnaval'. Isso é verdade? A origem do Carnaval é na Bahia?"
Pego de surpresa pelo questionamento, Bial explicou sem entrar em muitos detalhes:
"É… um pouco assim, em cada um. É uma mistura da Bahia com o Rio de Janeiro. O samba, na verdade, tem origem nessas duas cidades. A Bahia é onde o nosso Carnaval é mais negro".
Em tom bem-humorado, Bono respondeu:
"Bom, eu sou o mais negro dos irlandeses".

sexta-feira, 23 de maio de 2025

A amizade de décadas do U2 ficou evidente durante toda a cerimônia do Ivor Novello, e Larry Mullen diz que sentiu muita falta da banda


O U2 está de volta ao estúdio fazendo novas músicas, após um intervalo de oito anos.
A banda estava em uma pausa prolongada, enquanto o baterista Larry Mullen Jr se recuperava de uma cirurgia.
"Foi difícil ficar longe por causa de uma lesão", disse Larry Mullen para a BBC, "então estou emocionado por estar de volta a um ambiente criativo, mesmo que eu não esteja 100% e tenha algumas coisas ainda. É simplesmente a coisa mais extraordinária. Quando eu estava longe da banda, sentia falta dela, mas não percebi o quanto sentia falta".
Bono falou sobre as recentes sessões de composição do U2.
"Éramos só nós quatro numa sala, experimentando uma música nova e pensando: 'Que sensação é essa? Ah, sim, é química'. Tínhamos isso em nossos 17 anos de idade. Tivemos isso ao longo dos anos, mas às vezes você perde isso, a maneira como a música é montada hoje em dia não é favorável a essa química. Mas não é estranho que tenhamos chegado ao ponto em que apenas baixo, bateria, guitarra e um cantor barulhento soam como uma ideia original? É onde estaremos em 2025".
A banda está em modo nostálgico há quase uma década.
Em 2017, eles fizeram uma turnê em estádios para celebrar o álbum 'The Joshua Tree', que definiu sua carreira. Bono passou a pandemia escrevendo seu livro de memórias, 'Surrender', o que levou a banda a revisitar e regravar alguns de seus maiores sucessos no álbum acústico 'Songs Of Surrender'.
Os shows do ano passado em Las Vegas recriaram a reinvenção de Berlim dos anos 1990 de 'Achtung Baby' e eles coroaram isso com um álbum de arquivo de material inédito de 'How To Dismantle An Atomic Bomb', de 2004.
"Passamos um momento pensando no passado — mas fazemos isso porque precisamos entender de onde veio esse desejo de ser ouvido", disse Bono.
Comparecer ao Ivor Novello deu à banda outra oportunidade de recontar sua história, para um público que incluiu Bruce Springsteen, Charli XCX, Ed Sheeran, Brian Eno e Lola Young.
"Quando nos reunimos na cozinha de Larry Mullen em 1976, isso era inimaginável", disse Adam Clayton.
"Nunca pensamos que a banda pudesse chegar à velhice!"
Larry Mullen relembrou o executivo da gravadora que aconselhou o resto do grupo à dispensar seus serviços, enquanto The Edge cantou uma versão modificada de "My Way", para ilustrar como ele sempre tem a última palavra.
Bono não ficou impressionado.
"Gostaria de lembrar a todos que The Edge foi o primeiro a acabar com a banda", ele disse.
"Todos nós passamos por isso desde então, mas em 1982, aos 21 anos, aquele homem decidiu que já estava farto da indústria musical, com seus egos inflamados e personalidade inflada.
"Perguntei a ele: 'Você vai abrir uma exceção para mim?'"
Nos bastidores, eles falaram sobre seus primórdios na cena punk de Dublin e como isso deu a quatro músicos inexperientes permissão para perseguir seus sonhos.
"Não viemos de uma tradição de grandes compositores", disse Mullen Jr. "Não tínhamos nenhum talento para o blues, então começamos do zero, todos nós".
"Muitas das nossas primeiras influências foram bandas como The Ramones, que faziam músicas pop de três minutos, e Patti Smith, que era um pouco mais poética e tinha um pouco mais de consciência social", disse Adam Clayton.
"Sabíamos que o nível era alto, mas estávamos apenas começando a chegar ao nível mais baixo".
"O punk rock foi como o ano zero para nós", continuou Bono.
"Não queríamos realmente ter conhecimento, ou ficar presos ao passado. Então, começamos do zero, na verdade, o que foi ótimo, porque não podíamos tocar músicas de outras pessoas. Simplesmente começamos a compor as nossas".
Ao longo dos anos, eles aprimoraram essas habilidades. Inspirados por Bob Marley, seu companheiro de gravadora na Island Records, eles perceberam que o rock poderia ser mais do que sexo e atitude.
"Bob podia cantar sobre qualquer coisa que quisesse", disse Bono.
"Ele cantava para Deus, cantava para suas amantes, cantava para as pessoas na rua. Não havia regras para Bob Marley — então essa era exatamente a influência certa para nós, porque era para lá que queríamos ir".
"Qualquer compositor sabe que precisa escrever sobre coisas que lhe interessam", concordou The Edge.
"É aí que se conecta e significa alguma coisa. Caso contrário, é artificial".
Durante toda a cerimônia do Ivor Novello, a amizade de décadas do U2 ficou evidente — ainda que por meio de provocações implacáveis e bem-humoradas.
Eles tentaram fazer com que The Edge dançasse para a equipe de TV da BBC. Larry lembrou seus companheiros de banda sobre a propensão que eles tinham para se travestir nos anos 1990. Bono revisitou a crítica mordaz de Paul Weller à banda.
Quando perguntaram a ele: "Por que você não gosta do U2?", ele respondeu: "Porque eles usam botas de cowboy".
"'Eu mantenho meu argumento'."
Felizmente, a era das botas de cowboy é história antiga (Bono usou saltos cubanos na cerimônia) e deixando de lado o opróbrio de Weller, o U2 se tornou uma das maiores bandas de rock, vendendo mais de 175 milhões de álbuns no mundo todo.
Houve erros ao longo do caminho. Adam Clayton sumiu em uma bebedeira durante a parte da Nova Zelândia da colossal turnê Zoo TV de dois anos (ele agora está sóbrio e aparecendo no 'Gardener's World'), enquanto a banda se desculpou repetidamente pela decisão equivocada de pré-carregar seu álbum de 2014, 'Songs Of Innocence', nos iPhones das pessoas.
Em sua autobiografia, Bono disse que assumiu "total responsabilidade" pela façanha.
Mas ao entrarem em sua quinta década, a banda está pronta para "se candidatar novamente ao cargo de melhor banda do mundo", como eles memoravelmente disseram em 2001.
Um ano atrás, Bono expressou seu desejo de lançar "um álbum de guitarra barulhento, intransigente e irracional", citando o AC/DC como influência.
No Ivor Novello, acidentalmente foi citado isso incorretamente para ele como "um disco de guitarra inatacável".
"Estou realmente satisfeito com esse adjetivo: inatacável", disse Bono.
"Acho que ele disse 'invendável'", respondeu Larry Mullen.
"Mas ouça", disse Bono. "Temos um gênio da guitarra na nossa banda, e a única pessoa que não sabe disso é ele. Dizemos isso a ele todos os dias, mas ele insiste em tocar piano... e às vezes colheres".
"É chantagem", insistiu The Edge. "Os caras estão todos falando sobre esse álbum de guitarra que estamos fazendo, e eu estou em casa, pensando: 'Ok, é melhor eu continuar com isso'".

sábado, 17 de maio de 2025

'Bono: Stories Of Surrender' : A Entrevista - Parte V


Cannes é uma viagem curta da villa à beira-mar de Bono em Eze-sur-Mer. Ele a comprou com The Edge em 1993 e se considera grato a uma costa que, diz ele, lhe deu uma "adolescência tardia".
"Posso te dizer que eu dormi em praias perto daqui", diz Bono com um sorriso. "Eu acordei ao sol". Mas isso não significa que o Festival de Cinema de Cannes seja uma experiência particularmente familiar para o cantor. Ele está aqui para a estreia do documentário da Apple TV+ 'Bono: Stories Of Surrender'.
Antes de vir, a filha de Bono, a atriz Eve Hewson, deu-lhe um conselho. "Ela disse: 'Supere a si mesmo e manda ver'", Bono disse em uma entrevista em um hotel fora da Croisette.
"O que eu tenho que fazer? Mostrar a sua gratidão por ser um músico e eles o permitirem entrar em um festival que celebra atores e contadores de histórias de um tipo diferente. Eu disse: 'OK, vou tentar'."
Além disso, Cannes, ele observa, foi fundada durante a Segunda Guerra Mundial como uma alternativa ao então Festival de Cinema de Veneza controlado por Mussolini. Foi, diz ele, "projetada para encontrar fascistas".
As mudanças nas tectônicas geopolíticas ocuparam muito a mente de Bono. Ele passou grande parte de sua vida ativista lutando por ajuda à África e combatendo o HIV-AIDS. A desmontagem da USAID pelo presidente dos EUA, Donald Trump, reverteu muito disso. "O que é irracional é ter prazer no desfiguramento dessas instituições de misericórdia", disse Bono.
No filme, Bono é humilde e reflexivo, analisando a influência formativa de seu pai, a ascensão à fama do U2 e considerando como o ego e o trabalho social podem estar relacionados. Ele o chama de "as grandes histórias de um astro do rock de baixa estatura".
E como foi o caso em uma tarde ensolarada recente em Cannes, Bono se mostra um relator cativante.

Você sempre defendeu que a globalização tira as nações em desenvolvimento da pobreza. O que você acha da mudança de direção em relação à globalização por muitos países recentemente?

Bem, é verdade. A globalização fez muito bem aos pobres do mundo. Isso e os níveis aumentados de ajuda tiraram uma bilhão de pessoas da extrema pobreza e reduziram pela metade a mortalidade infantil — saltos notáveis para a qualidade de vida dos seres humanos. Mas também é justo dizer que certas comunidades realmente pagaram o preço por isso — aqui na Europa, nos Estados Unidos. E não tenho certeza de que essas comunidades foram suficientemente creditadas por suportar as tempestades que a globalização trouxe. Então, eu entendo como chegamos a este lugar, mas isso não significa que seja o lugar certo para estar. Nacionalismo não é o que precisamos. Crescemos em uma atmosfera muito carregada na Irlanda. Isso faz você desconfiar do nacionalismo e desses espíritos animais que podem ser incitados. Isso sou eu falando sobre rendição, 'Stories Of Surrender', em um momento em que o mundo nunca esteve tão perto de uma guerra mundial em minha vida. No começo, acho que parece absurdo, um pouco ridículo — agora isso nunca me impediu antes — mas acho que está tudo bem em parecer ridículo por essas ideias. Como rendição, não violência, paz.

Você já tem alguma impressão do Papa Leão XIV?

O novo papa, ele realmente parece um papa. Esse é um bom começo. Eu vi outro dia sua primeira peça e ele estava falando sobre parar de gritar, Deus pode preferir sussurros. Eu pensei: "Ah, isso pode ser interessante". Eu sou mais do tipo que grita. Eu venho do punk rock. Mas estou aprendendo a transformar esse grito em um sussurro neste filme para chegar a uma intimidade.

As partes mais comoventes de 'Stories Of Surrender' são quando você fala sobre seu pai, que morreu em 2001. Como seus sentimentos sobre ele evoluíram com o tempo?

Bem, a precisão da crítica — "Você é um barítono que pensa que é um tenor" — é tão abrangente. Eu ia chamar a peça de "O Barítono Que Pensa Que É Um Tenor". Ele está em minha mente porque é a razão pela qual eu canto. É uma ferida que nunca vai fechar porque depois de interpretá-lo no palco por todas aquelas noites — apenas virando à esquerda ou à direita — eu sempre o amei, mas comecei a realmente gostar dele. Ele começou a me fazer rir. Houve um presente, bem como a voz, que ele me deixou. Será que ele me perdoaria por imitá-lo no Teatro di San Carlo, um lugar sagrado para tenores, provavelmente não. Mas aqui estou eu imitando um ator, então.

Você passou os últimos cinco anos em algum estado de autoanálise. Primeiro o livro, depois o espetáculo, agora o filme. Por quê?

Escalada de missão. Eu sabia que tinha que escrever o livro. A peça foi para que eu não tivesse que fazer a turnê do livro em atividades promocionais normais, que eu realmente pudesse me divertir com isso e interpretar todos os diferentes personagens da minha vida. Eu achei que foi realmente divertido. Então eu percebi: Ah, há partes de você que as pessoas não conhecem. Não vamos aos shows do U2 para gargalhadas. Mas essa é uma parte de quem eu sou, que é a travessura bem como a melancolia. Então você acaba fazendo uma peça com muitas câmeras pelo caminho. Entre Andrew Dominik e ele me ensinou algo que eu realmente não entendia, mas minha filha entende: A câmera realmente sabe quando você está mentindo. Então, se quiser contar essa história, é melhor estar pronto para tirar sua armadura. Você vai se sentir nu na frente de toda a escola, mas é isso que é preciso.

Saindo do outro lado, você ganhou alguma nova perspectiva sobre si mesmo?

Baseado no meu comportamento apenas na semana passada, a resposta para essa pergunta é provavelmente: Devo me esforçar mais. A falta de progresso do peregrino. Eu diria que entendo um pouco melhor de onde eu vim e que onde acabo depende de como eu lido com isso. Eu tenho chamado isso de o salão dos espelhos, quando você tenta descobrir quem você é e quem está por trás do rosto. Então você apenas vê todos esses rostos olhando para você, e todos são verdadeiros. A verdadeira estrela deste filme é meu pai. Eu meio que gosto mais dele do que de mim mesmo porque o humor se tornou tão importante para mim. Não é como se tudo precisasse ser uma gargalhada, mas há uma liberdade. Pessoas como eu, nós podemos cantar sobre liberdade. É muito melhor ser ela.

Você falou anteriormente sobre a crescente ameaça de guerra mundial. Como alguém que frequentemente cantou e trabalhou pela paz, você ainda tem esperança?

Há uma ministra da Albânia que disse algo que realmente ficou comigo. Ela disse: Se você tem a chance de ter esperança, é um dever moral porque a maioria das pessoas não tem. Então, sim, eu sinto que vamos encontrar uma saída para isso. Este é um momento assustador. Acho que reconhecer que podemos perder tudo o que ganhamos é sóbrio, mas pode ser uma mudança de curso. Eu apenas acredito o suficiente nas pessoas. Eu acredito o suficiente nos americanos. Eu sou uma pessoa irlandesa, não posso dizer às pessoas como votar. Eu posso dizer a você que um milhão de crianças morrendo porque seus sistemas de suporte à vida foram arrancados da parede, com alegria, isso não é a América que eu reconheço ou entendo. Você está na linha de frente da Europa aqui. A América veio e salvou o dia. Ironicamente, a Rússia também. Mais pessoas morreram da Rússia lutando contra os nazistas do que todo mundo. Agora eles pisam em suas próprias memórias sagradas pisando nos ucranianos que também morreram na linha de frente. Acho que parte disso é que a história não o reconheceu. Eu acredito que há integridade no povo russo. Eles precisam mudar seu líder, na minha opinião. Eu acredito que há integridade nos americanos. Eles vão descobrir. Quem foi que disse: Se você der aos americanos os fatos, eles eventualmente farão a escolha certa. Agora, eles não estão recebendo os fatos. Pense nisso: um declínio de 70% no HIV-AIDS, liderado por republicanos, seguido por democratas. A maior intervenção de saúde na história da medicina para combater o HIV-AIDS foi jogada fora. Estava quase lá. Para um viajante espacial, é como chegar a Marte e dizer: "Ah, vamos voltar". Isso é desconcertante para mim.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

'Bono: Stories Of Surrender' : A Entrevista - Parte IV


A maior conquista de Bono como ativista deve ser considerada seu trabalho na prevenção e tratamento do HIV/AIDS. No início dos anos 2000, ele pressionou o então presidente George W. Bush para enviar medicamentos antirretrovirais urgentemente necessários para a África Subsaariana e o Caribe, e o presidente respondeu criando o Plano de Emergência para o Alívio da AIDS, que salvou cerca de 26 milhões de vidas.
Mas agora o corte de verbas da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) pelo presidente Trump ameaça todo esse trabalho, destruindo mais de 80% dos programas de ajuda humanitária, incluindo o combate à AIDS. Além disso, o DOGE, o Departamento de Eficiência Governamental liderado por Elon Musk, cortou praticamente todos os empregos na agência.
"Estamos todos tentando fazer cálculos. Bill Gates diz que um milhão de crianças morrerão", disse Bono ao Deadline em uma entrevista em Cannes, onde ele deve estrear seu documentário 'Bono: Stories Of Surrender'. "Quem iria querer isso na consciência? Quer dizer, cortar empregos ou o que quer que o DOGE faça. Não se trata de perda de empregos. Trata-se de perda de vidas. Trata-se de crianças".
Bono disse que entendia o impulso do MAGA de "colocar a América em primeiro lugar" e de desaprovar ajudar qualquer pessoa de fora dos EUA.
"Não é irracional decidir não gastar dinheiro com pessoas que não votam, que vivem em lugares distantes", observou Bono. "Não acho que seja a América pela qual o mundo está apaixonado. Não acho que seja uma política inteligente, mas não é irracional. O que é irracional é fazer isso sem aviso, sem dar às pessoas a chance de se prepararem, arrancar esses sistemas de suporte de vida das paredes da vida de tantas pessoas".
O documentário dirigido por Andrew Dominik, parte monólogo, parte apresentação de versões de músicas do U2 – examina os momentos-chave da vida de Bono, como a perda de sua mãe quando ele tinha apenas 14 anos, depois que ela sofreu uma hemorragia cerebral. No filme, Bono diz: "A resposta do meu pai a essa tragédia foi nunca mais falar dela".
Ele descreve que teve frequentes desentendimentos com o pai após a morte da mãe e que ansiava pela atenção do pai, mas não a recebia. Mas agora, aos 60 anos, Bono reavaliou seu falecido pai e fez as pazes com as limitações emocionais de ser um pai solteiro criando Paul Hewson e seu irmão mais velho, Norman.
"Percebi que sua esposa tinham morrido inesperadamente. Ele estava sentindo uma culpa enorme. Ele tem dois filhos, dois adolescentes. Ele não sabe o que fazer. E eu tornei tudo muito mais difícil para ele, porque eu estava indo atrás dele, como costuma acontecer em fases tão jovens", disse Bono. Ao escrever suas memórias, "aprendi não apenas a amá-lo, mas a gostar dele".
Bono herdou a voz do pai (seu pai era um ótimo tenor, enquanto Bono canta como barítono, embora, com a idade, sua voz tenha evoluído para a extensão de tenor). Ele herdou outra coisa essencial do pai: um sentimento de indignação com a injustiça que impulsionou o ativismo de Bono em relação à AIDS, ao alívio da dívida africana e a outras questões.
"Ele tinha essas convicções e, com certeza, disse ele, 'Por que precisaríamos de caridade num mundo mais justo?' "É claro que ele estava certo", observou Bono. "E acho que, ao fazer este filme, cheguei lá, consegui resgatar essas memórias dele e perceber o quão importante foi o papel que ele desempenhou, não apenas me dando algo contra o que lutar, mas algo pelo qual lutar".
A RadicalMedia tem uma longa história de levar os sucessos mais famosos da Broadway para a tela grande. 
"Este é provavelmente o filme mais autobiográfico e é muito fiel à história de Bono", diz o fundador e CEO da RadicalMedia, Jon Kamen. "Bono escreveu um livro lindo e estava em turnê com o que ele chamava de seu show solo, que na verdade era uma turnê de divulgação do seu livro. O espetáculo seria apresentado em Nova York para uma temporada limitada de duas semanas no Beacon Theatre. O pessoal da Apple entrou em contato conosco. Eles sabem que fizemos vários filmes baseados em performances teatrais, como Hamilton e American Utopia. Você tem que entender que isso foi há dois anos atrás quando filmamos. Também tínhamos acabado de sair do Summer Of Soul com o Questlove. Parecia uma escolha bastante lógica para nós sermos os produtores de 'Stories Of Surrender'. Bono decidiu que Andrew Dominik, alguém que ele também conhece há muito tempo, iria dirigir o filme. Foi um casamento meio arranjado, mas feliz.
Estudamos o material e trabalhamos com uma equipe criativa, diretor e diretor de fotografia, etc. Geralmente tentamos reimaginá-lo como uma interpretação cinematográfica da produção teatral original. Isso requer vários dias de filmagem, mas também decisões muito criteriosas que precisam ser tomadas em termos de edição para um filme finalizado. A pós-produção deste filme foi o que realmente levou tanto tempo. Andrew fez uma edição e trabalhamos muito próximos de Bono, já que é uma autobiografia. Trabalhamos em estreita colaboração com ele para selecionar histórias do livro. Este filme tem duração de uma hora e meia. Se você ouvir a fita de áudio do livro, verá que leva 18 horas".

segunda-feira, 12 de maio de 2025

'Bono: Stories Of Surrender' : A Entrevista - Parte III


Andrea Laffranchi - Corriere Della Sera

"Veja como o mar é lindo...". Antes mesmo de Bono fazer sua aparição no vídeo, sua voz pode ser ouvida. "Torna A Surriento" é a canção com a qual encerrou o show no San Carlo de Nápoles da turnê para promover a autobiografia 'Surrender' em 2023. "Não critiquem o meu napolitano... é uma língua difícil de dominar", sorri.
Agora esse show de um homem só virou um documentário. 'Bono: Stories Of Surrender', dirigido por Andrew Dominik, estreará no Festival de Cinema de Cannes em 16 de maio e estreará na Apple TV+ em 30 de maio. 
Monólogos e canções (acompanhando-o estão Kate Ellis no violoncelo, Gemma Doherty na harpa e Jacknife Lee na eletrônica e percussão), filmagens da noite no San Carlo e com reconstruções (às vezes com público, às vezes sem) no Beacon Theatre em Nova York, um dramático preto e branco, para contar a história de sua vida: sua adolescência com sua mãe que morreu cedo demais, a banda que nasceu na cozinha de seu amigo, seu sucesso mundial com o U2, seu ativismo. 
A sombra do pai paira sobre tudo, aquele que costumava zombar dele porque "você é um barítono que pensa que é tenor", aquele daquelas poucas conversas (com Bono interpretando os dois papéis) no Sorrento Lounge do Finnegan's em Dublin, o pub onde a família Hewson saia.

Qual é a diferença entre colocar sua vida em uma música, um livro ou uma peça?

São três meios que exigiram três abordagens diferentes. Para o filme, pensei que seria suficiente levar as câmeras para o cinema. E em vez disso é outro meio diferente. "Pare de atuar, entre na história", Dominik me disse. Tive que refazer a cena de despedida com meu pai cinco vezes e ele disse: "Você não está confiante". Cada noite era um teste. As últimas palavras do meu pai foram: "Foda-se, quero ir para casa". Eu não deveria ter confundido a intenção daquele "foda-se". Eu tive que entrar nessas coisas e foi chocante. Era como entrar num salão de espelhos para descobrir quem você realmente é e perceber que você tem tantos rostos que não tem mais certeza de qual é o verdadeiro... Acho que não me entendo no presente ou para onde estou indo, mas tenho uma melhor compreensão de onde vim.

Há muita (e até uma imitação hilária) de Pavarotti. O San Carlo é um templo da ópera. No documentário você ri, você chora, há dor, há a epopeia do rock… A vida é uma ópera?

Não conheço nenhuma família que não seja como uma ópera. Foi ousado levar minha voz a um lugar tão sagrado como o San Carlo. Fiz como os cantores de ópera fazem: sem reuniões antes ou depois do espetáculo, uma vida de silêncio. Ópera não é uma ciência, é uma arte. Quando Pavarotti cantava uma nota de peito aberto, era porque ele tinha que comunicar um momento em que a alma quer escapar do corpo. A razão pela qual ele é o maior cantor da história é seu dom de comunicar emoções que não têm palavras.

Seu pai também era tenor, mas tinha poucas palavras.

Ele se viu em situações complexas e fez o que muitos homens fazem: distanciou-se do problema. Enquanto numa família funcional falamos sobre essas coisas à mesa, não me lembro de um almoço com meu pai, meu irmão e eu na mesma mesa. Nós, humanos, não somos muito evoluídos. Estou assistindo a série Adolescência com minha esposa Ali, aliás, o pai e o menino são ótimos atores, e que mostra a violência generalizada entre os jovens masculinos. Na Itália, tivemos recentemente os casos de Sara e Ilaria. Nós, homens, precisamos entender que podemos ter medo, que podemos sentir raiva, mas que não podemos expressá-la de forma violenta.

O rap é culpado por suas letras misóginas.

O hip hop conta histórias de violência que eu preferiria evitar, a menos que fossem contadas por um gênio como Kendrick Lamar. E mesmo quando Johnny Cash cantou "Eu atirei em um homem em Reno só para vê-lo morrer", ele não estava cantando na primeira pessoa, ele estava contando uma história.

O palco sem o U2?

Odeio ficar sem Edge, Adam e Larry. Foi estranho mostrar para quem estava comigo dessa vez o medo que me invade antes de entrar no palco. A luz das estrelas sai de um buraco negro e eu ainda sinto aquele vazio dentro de mim. Não posso dizer à banda que a versão de "Sunday Bloody Sunday" aqui é talvez a melhor de todas, senti o espírito de Nina Simone, mas estou cansado do protagonista desta história.

Então quando o novo álbum do U2 estará saindo?

Larry se recuperou da lesão nas costas. Ele, Edge e Adam estão a 100 metros de onde estão agora e estão fazendo uma música incrível. Como se suas vidas dependessem disso... E é assim porque a música, assim como o futebol, não é uma questão de vida ou morte, é muito mais importante. Nós experimentamos muito nos últimos anos. Edge e eu mergulhamos em um mundo folk que já acompanhávamos há muito tempo. Depois trabalhamos em algumas coisas com Brian Eno e quando fazemos música, ele e eu sempre acabamos em outro lugar...

O que você lembra de Pavarotti? Você estará em Verona para sua festa de 90 anos?

Estaremos em outro lugar com a banda e tentarei encontrar outra maneira de participar... Acho que inconscientemente tentei conhecer meu pai, que era tenor, através do Luciano. Tenho tantas lembranças... Uma vez, no Pavarotti And Friends, fizemos uma versão de "Ave Maria', que estraguei melodicamente, com uma letra nova sobre guerra e pobreza que eu tinha escrito porque o conflito no Iraque tinha acabado de começar. Eu estava lá com ele, conhecia seus valores, ele pertencia a uma geração que se lembrava da guerra. A Itália entende o horror da guerra e da divisão, mas hoje vejo a incapacidade do cálculo político de responder a muitas das nossas necessidades.

Como você vê o planeta?

Em chamas. E alguém atira pedras nos bombeiros e enche suas mangueiras com gasolina..."

Trump é um elemento divisivo.

O imperador... Com ele e Putin estamos diante de um monstro de duas cabeças. Ele é um Nero que não se limita a tocar lira enquanto Roma queima, mas tem à sua disposição uma orquestra inteira, composta por tarifas e mísseis. Não compartilho as políticas da sua primeira-ministra Giorgia Meloni, mas me conforta saber que ela entendeu que a Europa é a única possibilidade de resistir a esse monstro de duas cabeças. Precisamos da Europa mais do que nunca. A América é o caldeirão cultural. A Europa é um mosaico maravilhoso no qual cada um pode manter sua própria identidade nacional. Somos 450 milhões de pessoas e temos bons valores e também temos valor económico: eu não argumentaria contra uma Europa unida. Há muito tempo venho dizendo que a Europa é um pensamento que deve se tornar um sentimento: precisamos de menos burocracia e devemos ouvir o que Mario Draghi diz sobre inovação. A Itália pagou um preço muito alto por alguns dos problemas que afligem a Europa, como os migrantes, por exemplo, mas também precisamos que muitas mentes novas venham para a Europa e precisamos estar abertos. Nossas diferenças nos enriquecem.

Você se encontrou com o Papa Francisco diversas vezes.

Um gênio do gesto, da humildade desarmante e do humor. Um gênio da Graça… Amor entendido como verbo e não como substantivo, amor para aqueles que precisavam… Encontrei-o várias vezes e mantive uma correspondência próxima com ele. Isso me fez entender a ideia do infinito dentro de todos e de tudo e me tornei mais franciscano. Para alguns pode ser herético, mas acho que a ideia de que o DNA de Deus também está no mundo natural é correta. O Laudato si' também nos fala sobre o clima: o próximo passo na evolução da nossa consciência é entender a divindade, não apenas nos outros e em nossos inimigos, mas no mundo natural. Quando ele ficou doente, enviei-lhe um desenho de uma caneca de Guinness com a palavra "sláinte" escrita, que significa "saúde" em gaélico. Eu o fiz sorrir.

domingo, 11 de maio de 2025

'Bono: Stories Of Surrender' : A Entrevista - Parte II


Sean O'Hagan - The Observer

Como o filme deixa claro, o falecido pai de Bono, Brendan "Bob" Hewson, era um homem para quem o incentivo paterno não era fácil. O relacionamento deles é intensamente evocado na tela em cenas em que Bono se senta a uma mesa no palco semi-escuro e revive as conversas constrangedoras, mas muitas vezes sombriamente humorísticas, que tiveram enquanto tomavam cerveja Guinness no pub Finnegan's em Dalkey. Era um ritual tenso de união, familiar aos irlandeses de uma certa geração. Em suas memórias, Bono escreve: "Nós nos encaramos. Conversamos perto um do outro. Ocasionalmente, conversamos um com o outro".
Quando desenvolveu o câncer que lhe tirou a vida em 2001, Bob Hewson finalmente, como Bono ironicamente coloca, "se sentiu confortável com seu filho sendo amado e odiado, que é o preço da popularidade na Irlanda".
Tendo escrito o livro e evocado seu pai no palco e na tela, ele está mais perto de entendê-lo?
"Só agora estou começando a perceber, depois de interpretar meu pai noite após noite no palco", diz ele, "que ele poderia ter sido muito mais simpático do que eu fui. E engraçado. E encantador. Teria sido fácil caricaturar ele, mas isso teria distorcido sua complexidade".
Em maio de 2023, assisti à apresentação final de Bono naquele espetáculo solo, no Teatro di San Carlo, em Nápoles, a casa de ópera mais antiga do mundo. Ao final do espetáculo, ele cantou uma das canções favoritas de seu falecido pai, "Torn A Surriento". Foi um movimento característico, ainda que arriscado considerando o cenário, mas o público italiano o absorveu, levantando-se aos gritos de: "Bravo, maestro!"
Parecia que havia uma lágrima em seus olhos no final...
"Sim", ele diz, "e estava tudo bem. É uma música triste para cantar, mesmo que você não esteja pensando no seu pai".
Ele faz uma pausa. "Em certo sentido, meu pai não poderia ter sido menos ambicioso, e às vezes pensei que talvez ele estivesse certo em priorizar a vida e os amigos em vez das ideias. Ele certamente priorizou a família".
Em relação à sua própria família, sua filha, Eve, é uma atriz de sucesso e seu filho, Elijah, lidera uma aclamada banda de rock, Inhaler. Como ele se sentiu quando Elijah seguiu seus passos?
"De certa forma, a última coisa que você quer que alguém que você ama faça é se expor", diz ele. "Para mim, isso sempre me trouxe muito julgamento e desconforto e, mesmo fingindo que não era nada – e até certo ponto é, doeu. Sou muito mais insensível agora, mas, quando eu era mais jovem, a armadura não estava bem colocada. É isso que eu não quero para os meus filhos. E, aliás, eles não sofrem com isso. Elijah está perto de entender quem ele é agora, mas, para mim, a arte sempre foi uma tentativa de me identificar".
Uma consequência de suas reflexões recentes, ao que parece, é que Bono se afastou recentemente do que parecia ser parte integrante do trabalho de sua vida – os esforços para mobilizar políticos ocidentais a lidar com a desigualdade global estrutural e prevenir mortes evitáveis na África Subsaariana.
No final de 2023, sem alarde, Bono deixou o conselho da ONE, a organização de campanhas que ele cofundou em 2004. Parecia um reconhecimento não apenas de sua idade, mas de uma decisão que ele havia tomado de redefinir suas próprias prioridades em relação à sua família e à sua banda.
Houve momentos em que ele reconheceu a contradição entre suas duas vocações. Quando conversei com ele em 2009, Bono reconheceu que sua campanha implacável havia causado atrito com os outros membros da banda: "Eles achavam que isso me distrairia. E, mais do que isso, eles simplesmente não estavam nem um pouco interessados".
Quando o lembro, ele concorda e diz: "É, eu poderia ter perdido a banda".
E, mesmo assim, ele continuou a conciliar dois empregos, ambos exaustivos. Quão difícil foi isso?
"Deixe-me colocar desta forma: não vou para o túmulo pensando que perdi meu tempo em termos de ativismo. No entanto, posso ir para o túmulo pensando que houve aquela música do U2 que eu deixei de lado, quando estava tão perto e eu saí pela porta dos fundos antes de terminar".
Ao longo de quatro décadas, a abordagem pragmática de Bono ao ativismo pelo oerdão da dívida africana e o fornecimento de medicamentos retrovirais para tratar o HIV/AIDS o fez ser justificadamente elogiado, mas também criticado, entre outras coisas, por ter um complexo de salvador branco, ser hipócrita sobre seus assuntos fiscais e se aproximar dos republicanos de direita e das elites mundiais, cuja vasta riqueza, argumentam seus críticos, continua sendo uma parte essencial do problema que ele está tentando resolver.
Contra isso, ele sempre insistiu que lida com "política real e realpolitik", na busca obstinada por resultados, em vez de expressar indignação.
Jamie Drummond, outro cofundador da ONE, descreve Bono para mim como "um factivista, um ativista baseado em evidências, que passou anos estudando esses assuntos em detalhes, o que também é útil quando se tenta convencer alguém a investir bilhões de dólares em um país onde talvez nunca tenha estado".
Em 2003, após pressão determinada de Bono, o então presidente dos EUA, George W. Bush, criou o Pepfar (Plano de Emergência do Presidente para o Combate à Aids), que pôs em prática o maior compromisso de qualquer nação na história para combater um único vírus. (Ele e Bush se tornaram amigos desde então).
Até o momento, sucessivos governos americanos destinaram mais de US$ 120 bilhões a essa causa, o que ajudou a salvar cerca de 26 milhões de vidas. Apesar das profundas reservas de esquerdistas como eu quanto à companhia que ele mantinha, os resultados – embora não tenham criado a mudança sistêmica que seus críticos insistem ser necessária – sem dúvida falam por si.
Sua abordagem, até agora, baseava-se no que ele frequentemente chama de sua única ideia útil: você não precisa concordar com as pessoas em tudo se a única coisa com a qual vocês concordam for importante o suficiente. Pergunto a ele se essa filosofia ainda é sustentável diante da ideologia brutal de "América em primeiro lugar" de Donald Trump.
"Acho que não", diz ele, cansado, "não consigo fazer isso. As organizações que ajudei a criar e sustentar não conseguem suportar a raiva que sinto pelo vandalismo, não apenas da USAID, mas das vidas das pessoas — das pessoas que trabalharam nisso e das pessoas cujas vidas dependiam disso".
Há um sentimento de profunda traição pessoal evidente em sua voz. "Acho que o que o governo está fazendo agora é tão míope e, francamente, estúpido. E há a alegria, a – ouso dizer – alegria dessas pessoas, enquanto desligam os sistemas de suporte de vida da parede sem aviso prévio. Isso significa uma hemorragia de vidas humanas. É difícil mensurar a enormidade disso agora".
Muitas das pessoas por trás desse vandalismo, como ele o chama, não são os mesmos republicanos e evangelistas cristãos com quem ele trabalhou anteriormente?
Ele admite que alguns deles são. "Tenho certeza de que, quando seus eleitores descobrirem, eles retirarão o apoio a este governo. Sejam milhões ou centenas de milhares de vidas em risco, como você pode justificar isso como cristão ou religioso?"
Considerando tudo isso, onde isso o deixa?
"Desempregado. Não acho que seja possível deixar de ser ativista, mas não tenho certeza se as conversas que aprecio entre pontos de vista opostos são aquelas que posso arbitrar neste momento. Mas há outras pessoas que podem assumir essa responsabilidade. Estamos em um território novo e é incrivelmente perturbador. Não reconheço o Partido Republicano [Grand Old Party]. Há algumas pessoas que conheço que imagino que ainda se importam e são gentis. E vale a pena refletir sobre a palavra gentileza. Em termos da evisceração da USAID e da Pepfar, crueldade não é a palavra para descrever – é assassina".
Ele fica em silêncio por um tempo. "Em nossas vidas, a sua e a minha, tínhamos a sensação de que o mundo estava evoluindo na direção da liberdade... mas, a questão é que não há respaldo histórico sólido para essa crença. Nossas vidas são um pequeno fragmento de tempo; o arco moral maior do universo não se curva em direção à justiça. Ele precisa se curvar em direção à justiça".
O que nos leva a Gaza. Em janeiro, Bono provocou uma onda de críticas online por aceitar uma medalha presidencial da liberdade de Joe Biden, que havia acabado de comprometer mais US$ 8 bilhões em armamento de alta tecnologia para Israel. Na Irlanda, onde o apoio à Palestina é tanto que Israel fechou sua embaixada em Dublin no final do ano passado, o U2, assim como muitas bandas de rock consagradas, tem sido regularmente criticado nas redes sociais por seu silêncio.
Certa vez, ele disse a famosa frase, lembro-lhe: "O lugar onde você mora não deve determinar se você vive". Certamente isso também se aplica a Gaza...
"Sim".
Será que ele ficou surpreso, então, com a indignação de tantas pessoas por ele ter recebido a medalha de Biden? Ele respira fundo. "Trabalhei com Joe Biden, e seus amigos e inimigos, por 25 anos, e ele lutou pelo cancelamento da dívida e apoiou nossas campanhas, que salvaram 26 milhões de vidas — então, é claro que eu ia receber a medalha. Eu também a estava aceitando em nome de todos os ativistas que dedicaram 25 anos de suas vidas a isso".
E quanto ao enorme número de vidas civis perdidas em Gaza e à atual suspensão da ajuda — talvez as pessoas pensem que ele deveria ser consistente em se manifestar?
"Acontece que eu me manifestei sobre Gaza no mesmo dia em que recebi a Medalha da Liberdade. Falei sobre o vazio de liberdade na vida do povo palestino no Irish Times e no Atlantic. Portanto, com todo o respeito, rejeito seu argumento central de que não me manifestei. Mas, também, acho tolice aceitar a noção de que os pronunciamentos públicos das pessoas são a soma de tudo. Busco resultados – do meu ativismo e, mais importante, para os ativistas que frequentemente estão na plateia do U2 e que trabalham mais arduamente se houver um objetivo claro à vista".
Na cerimônia da Medalha da Liberdade, ele me conta que estava sentado perto de José Andrés, fundador da organização beneficente de ajuda alimentar World Central Kitchen. "Este é alguém que perdeu sete de seus trabalhadores humanitários em Gaza, que foram retirados pelas Forças de Defesa de Israel (IDF). E ele está lá, se benzendo enquanto recebe sua medalha de Joe Biden. É por isso que minhas mãos estavam entrelaçadas daquele jeito, para ele. Eu estava seguindo sua bênção e é por isso que pareço um babaca tão piedoso".
Continuamos conversando por mais um tempo, até que seu assessor de imprensa chega para nos dizer que temos mais 15 minutos. Um tanto relutante, ele concorda em mudar a conversa para seu outro trabalho.
Comento a ele que o U2 anda muito nostálgico ultimamente, revisitando o álbum 'The Joshua Tree', de 1987, no palco em 2017 e o inovador 'Achtung Baby' para sua residência no Sphere, em Las Vegas, no ano passado.
Surpreendentemente, ele concorda. "Sim, estivemos envolvidos em alguma nostalgia. Mas eu diria que você precisa saber de onde veio para ser mais eficaz no presente e no futuro. Isso acontece de forma diferente com o livro, a peça e agora o filme. Tenho um registro de tudo isso, mas agora preciso voltar para o futuro, que é onde o U2 sempre viveu".
A banda, ao que parece, se reuniu recentemente em um estúdio próximo com o colaborador de longa data Brian Eno para preparar o terreno para o que será seu 16º álbum. "Estamos ocupados escrevendo mais uma razão para existir como banda", diz Bono. "Ainda acho Brian uma inspiração extraordinária e tenho certeza de que ele ainda me acha bastante frustrante. Mas sei que ele continuará defendendo nosso direito de sermos extasiados com nossa música".
É mais difícil fazer isso à medida que envelhecemos?
"Não em termos de música. Fica mais difícil, principalmente para os homens, manipular os egos uns dos outros".
Escrever o livro de memórias e adaptá-lo para o palco e a tela o fez pensar de forma diferente sobre seu papel na banda?
"Certamente levantou mais questões. No fim das contas, nossa arte é mais interessante do que nós, e acho que o desserviço que prestei à banda está nos distraindo de sua grandeza. Há algo que possuímos – uma impressão digital, um código genético – e sinto que não o servi o suficiente, que ele precisa de toda a minha atenção".
Antes de partir para uma reunião com a banda, ele me conta que um dos primeiros títulos de seu livro de memórias foi 'The Pilgrim and His Lack of Progress' "O Peregrino e Sua Falta de Progresso). Refletindo mais uma vez sobre a jornada solo que tem trilhado ultimamente, ele diz:
"Acho que fiz uma bela ópera de filme, e que não há problema em dar vazão a essas emoções desmedidas, se você fizer isso com um pouco de humor e humildade. Espero ter entendido o humor". Ele sorri. "A humildade está a caminho".
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