Em meados da década de 1980, o londrino Mark 'Flood' Ellis já havia consolidado seu nome como um dos engenheiros de gravação mais requisitados para música eletrônica alternativa e indie rock vanguardista, com créditos em álbuns de Depeche Mode, Nick Cave And The Bad Seeds, New Order, Soft Cell, Cabaret Voltaire e muitos outros. Mas quando o U2 o procurou para trabalhar em seu quinto álbum de estúdio, 'The Joshua Tree', Flood achou que estava sendo vítima de uma pegadinha.
Em entrevista à revista Musician em 1993, o respeitado produtor/engenheiro revelou como começou a trabalhar com Brian Eno e Daniel Lanois na obra-prima que vendeu 25 milhões de cópias.
"Por volta de 1986", ele relembrou, "eu estava fazendo muitos trabalhos freelance no Trident Studios e comecei a receber mensagens estranhas e vagas no telefone, do tipo: 'Alguém de Dublin está tentando entrar em contato com você'. Um dia, eu estava sentado em um bar quando um amigo entrou e disse: 'Aconteceu uma coisa estranha. O Bono, do U2, ligou para a minha mãe tentando te encontrar'. Era perto do Dia da Mentira, então achei que fosse só uma pegadinha elaborada.
No dia seguinte, eu estava no estúdio quando o telefone tocou. A recepcionista disse: 'É o Bono'. Pensei: 'Ah, claro'. Mas atendi e lá estava ele. Acontece que ele tinha gostado muito de algumas coisas que eu tinha feito com o Nick Cave e com o Gavin Friday, que é um dos melhores amigos dele. Então, fui convidado para uma espécie de teste de áudio. A banda estava reunida em uma casa. Não havia produtor por perto. Basicamente, eles disseram: 'É isso que queremos, temos uma semana, vamos ver o que você consegue fazer'. Cerca de dois meses depois, me convidaram para gravar o álbum 'The Joshua Tree'."
Trabalhar com Brian Eno no álbum, e posteriormente em 'Achtung Baby', foi, segundo Flood, "uma experiência reveladora".
"Não importa o quão aventureiro você se considere, ele pode ser ainda mais aventureiro", disse ele.
"Você estava mexendo em um programa de efeitos que parecia bem radical para você; então Brian Eno entrava no estúdio e juntava mais 15 efeitos em uma cadeia gigantesca e transformava tudo".
"Em outra ocasião", Flood contou ao escritor Alan Di Perna, "eu estava na mesa de som e coloquei um solo em uma música. Eno disse: 'Pare! Nunca mais coloque um solo nessa faixa enquanto eu estiver na sala'. E eu pensei: Bem, isso é peculiar.
Mas ele explicou depois que, quando você ouve as faixas individuais de uma música, uma estará um pouco desafinada, outra um pouco descuidada – todas terão suas falhas. Mas quando você ouve a música como um todo, ela funciona. Então, por que analisar os componentes individuais se eles não estão necessariamente contribuindo para a ruína do todo? Trabalhar com Eno me fez reavaliar tudo".

