Grunge
O U2 é uma banda marcada por contradições, assim como pela sua interação entre política e música. Um sucesso estrondoso como "I Still Haven't Found What I'm Looking For", de 1987 — uma canção que definiu a história do rock nos anos 80 — contém letras explicitamente cristãs e utópicas, como "Eu acredito no Reino dos Céus / Então todas as cores se fundirão em uma só". Mas as letras de Bono sempre foram suficientemente interpretáveis, e a imagem da banda é de "estrelas do rock" (especialmente em 'Achtung Baby' e 'PPO'), para que se especule sobre a origem cristã do U2 há décadas.
O desejo de Bono de renascer não precisa se limitar à religiosidade, no entanto. Crescendo na Irlanda em meio aos Conflitos na segunda metade do século XX, período que inspirou a canção "Sunday Bloody Sunday", Bono vivenciou uma época extremamente turbulenta na história recente do país. Bono viu política e religião se misturarem em sangue; isso explica praticamente tudo sobre sua visão de mundo.
"Desejo recomeçar todos os dias. Renascer a cada dia é algo que tento fazer", disse Bono no livro 'Bono: In Conversation with Michka Assayas'.
Assayas levou dois anos para compilar a biografia de 2006, escrita como uma série de entrevistas reunidas em partes ao longo do tempo e em vários locais. Nessa época, o U2 já havia superado a fase eletrônica dos anos 90, que alguns críticos e fãs detestaram, e reconquistado a simpatia do público com "Beautiful Day", de 2000. Eles até fizeram uma apresentação bem recebida no Super Bowl em 2002, onde Bono abriu a jaqueta para revelar uma bandeira americana em solidariedade ao público traumatizado pelo 11 de setembro. É esse último ponto sobre os EUA que se conecta à citação de Bono.
A declaração de Bono surgiu ao final de uma longa conversa sobre figuras musicais como Bruce Springsteen e Bob Dylan, este último por quem Bono nutria uma admiração especial. Quando Assayas redirecionou a conversa para o próprio Bono, perguntando qual seria sua identidade central à luz de figuras musicais como Springsteen e Dylan, Bono respondeu: "A coisa mais difícil... é ser você mesmo". Bono continuou: "Essa é a grande vantagem da América. É a terra da reinvenção".
Daí a citação de Bono sobre começos e renascimento. Para o público em geral, Bono (e o U2, por extensão) sempre pareceu estar envolvido em uma crise de identidade constante. Há a fase pré 'The Joshua Tree', a explosão da fama, a decadência rumo ao estrelato pop nos anos 90, a ascensão posterior, etc., como uma narrativa contínua. Mas, em vez de indicar inconsistência, a declaração de Bono demonstra que ele simplesmente está disposto a ser honesto sobre a autoexploração, seja pessoal, religiosa, artística ou de qualquer outra forma.
A constante mudança na imagem pública de Bono ilustra precisamente o que ele quer dizer com "Desejo recomeçar todos os dias". Em outras palavras, Bono está preso em um ciclo de autoavaliação de sua vida e escolhas. Qualquer banda, incluindo o U2, leva anos para compor, gravar e promover um novo álbum. Às vezes é rápido, como a diferença entre 'Achtung Baby' e 'Zooropa' (dois anos), e às vezes é mais longo. Enquanto isso, cada pessoa forma uma visão particular do que é o U2, como uma figura estática que supostamente não muda. Mas, na realidade, o quanto muda na vida de uma pessoa ao longo dos anos? Certamente, podemos esperar que os artistas também mudem e que essa mudança se reflita em sua arte.
Há também a perspectiva religiosa, evidente na alusão bíblica na segunda parte da citação de Bono: "Renascer todos os dias é algo que tento fazer". Podemos interpretar essa alusão como indicativa de devoção religiosa, sem dúvida. Para deixar claro, Bono já abandonou o cristianismo há muito tempo, apesar de toda a confusão persistente sobre o assunto. Em uma entrevista de 2013 citada pelo Huffpost, ele esclareceu: "Oramos com todos os nossos filhos, lemos as Escrituras, oramos". Mas se Bono se refere a nascer de novo no sentido de Jesus, não podemos afirmar. Dado o contexto em que ele cresceu, em uma Irlanda dividida religiosa e politicamente, essas preocupações são, no mínimo, compreensíveis.
Quanto à aplicação disso para o resto de nós, a resposta deveria ser simples: nunca presuma que você chegou às suas conclusões definitivas. Sempre presuma que há espaço para crescer, se renovar, se aprimorar e tente ativamente fazer isso, sem ressentimento, todos os dias.
















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