The Sunday Times - 1998
O U2 repaginou "The Sweetest Thing", um lado B de 11 anos atrás, transformando-o em um novo sucesso – e renegou seus ideais pós-punk ao lançar uma coletânea.
Nas últimas semanas, em seu estúdio no cais de Dublin, o U2 finalizou alguns assuntos pendentes há mais de uma década, desde a gravação de 'The Joshua Tree', seu álbum mais vendido. Com o produtor Steve Lillywhite, que nos três primeiros álbuns do U2 moldou o som grandioso apropriado por inúmeros outros nos anos 80, eles repaginaram "The Sweetest Thing", uma música lançada inacabada como lado B em 1987. Tendo ficado sem tempo para finalizá-la ao final das sessões de 'The Joshua Tree', o U2 sempre teve a intenção de tentar novamente, considerando que ela tinha potencial para se tornar um sucesso.
O single promete ser um dos maiores sucessos da banda nesta década, o que é irônico para um grupo que começou os anos 90 tentando demolir a estrutura de sinceridade que construiu durante os anos 80. Da mesma forma, a coletânea 'U2 The Best Of 1980-1990' irá contrariar a queda comercial que o U2 vem sofrendo desde 'Achtung Baby', seu álbum de 1991. Esse álbum vendeu 11,5 milhões de cópias, 'Zooropa', seu sucessor, vendeu 7 milhões, e 'POP', o álbum mais recente do U2, vendeu 6 milhões de cópias, apesar do apoio promocional da turnê PopMart. A coletânea, a primeira da banda, servirá como um lembrete de que o U2 é muito mais um produto dos anos 80 do que dos anos 90.
Paul McGuinness, empresário do grupo, descreve o álbum de "melhores sucessos" e a coletânea de lados B que o acompanhará como uma mera formalidade. "Nunca permitimos coletâneas do trabalho do U2 antes, preferindo que os álbuns fossem vistos como obras separadas", afirma. "Era inevitável que fizéssemos isso mais cedo ou mais tarde, e este foi um bom momento. Depois de tantos anos, é justo que as pessoas adquiram as faixas em um único álbum".
A coletânea, no entanto, será mais do que uma simples formalidade, mais até do que um impulso necessário para a campanha de Natal da Polygram. Será uma espécie de reconhecimento por parte de um grupo que se recusou a autorizar coletâneas porque queria ser visto como uma banda ativa, não como uma peça de museu.
Quando embarcaram na grandiosa e extravagante turnê PopMart, o U2 fez questão de ressaltar repetidamente que não se tratava de uma turnê de grandes sucessos, diferenciando-se assim dos únicos outros artistas do seu nível que faziam turnês, os Rolling Stones e o Pink Floyd, que seriam linchados se não apresentassem um repertório de hits em seus shows. Agora, em um acordo avaliado em cerca de 30 milhões de libras, o U2 finalmente entra no mercado da nostalgia. Após a coletânea dos anos 80 e pelo menos um novo álbum, uma coletânea com os maiores sucessos dos anos 90 será lançada.
É claro que eles poderiam ter feito isso e muito mais há muito tempo, obtendo lucros ainda maiores e mais fáceis. Além da coletânea ao vivo de preço médio 'Under A Blood Red Sky', que impulsionou o sucesso comercial de 'The Unforgettable Fire', o U2 não lançou nenhum álbum ao vivo, nem vasculhou seus arquivos em busca de material inédito. Eles teriam um ótimo álbum se simplesmente reunissem suas colaborações com outros artistas e faixas gravadas para álbuns tributo, como "Jesus Christ" para Woody Guthrie ou "Hallelujah" para Leonard Cohen.
Mantendo-se fiéis ao seu ascetismo pós-punk nesse aspecto, se não em mais nada, eles se tornaram uma das bandas mais pirateadas de todos os tempos. Não descartam um box set com material de arquivo, mas não têm planos para isso.
A próxima coletânea reforçará seu status como a banda arquetípica dos anos 80, cheia de paixão, fanfarronice e autoengrandecimento. De fato, apresentará um retrato um tanto distorcido de uma banda que caminhou rumo à caricatura conforme a década avançava.
Seu primeiro single, o majestoso e vigoroso "11 O'Clock Tick Tock", é uma omissão surpreendente, embora esteja disponível na coletânea lançada recentemente com trabalhos do produtor Martin Hannett. A inteligência e a qualidade daquele álbum de estreia caracterizaram alguns dos melhores trabalhos do U2 durante a década de 1980, mesmo em suas fases mais agressivamente colonizadoras, mas esse lado do U2 está pouco representado na coletânea.
O problema maior que o álbum destaca é a posição da banda na história, algo que eles sempre mantiveram, pelo menos em vista. O U2 surgiu depois do punk e 10 anos antes do acid house, as duas revoluções na música popular desde a década de 1960. Essas revoluções democratizantes, embora lideradas respectivamente pelos Sex Pistols e pelos Happy Mondays, tratavam de tecnologia e meios de produção, e não de bandas individuais. Situando-se entre elas, com sua poderosa simbiose entre o messiânico e o evangelizador, o U2 na década de 1980 pertencia mais à contrarrevolução.













