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domingo, 9 de outubro de 2016

U2: escrevendo o futuro da música com o lançamento de 'Songs Of Innocence' - Parte 03


Com 'Songs Of Innocence', o U2 escreveu um dos episódios mais quentes da indústria discográfica em 2014, levantando reflexões sobre novos caminhos para a distribuição e o debate sobre a necessidade de pagar a música que se faz e consome. O jornalista Nuno Galopim da Blitz de Portugal, reconstitui e analisa o significado daquela que poderá ser a mais arrojada investida de sempre de Bono e companhia.

Logo na fase de lançamento de 'No Line On The Horizon', Bono falou ao Observer sobre um outro "disco mais meditativo sobre a temática da peregrinação", que seria lançado na sequência. Se chamaria 'Songs Of Ascent' e, como descreveram à Rolling Stone, teria um mood como o de 'Kind Of Blue', de Miles Davis ou 'A Love Supreme', de John Coltrane. Chegaram até mesmo a revelar o nome do possível primeiro single: "Every Breaking Wave" (canção que acabaria por surgir modificada em 'Songs Of Innocence' e que teria sua estreia ao vivo em agosto de 2010). The Edge apontaria uma canção chamada "Kingdom Of Your Love", que seria depois renomeada como "Soon", como sendo outro tema possível no tracklisting do eventual novo álbum. A canção seria tocada durante a turnê 360°, antecedendo, juntamente com "Space Oddity", de David Bowie, a entrada da banda ao palco. Os planos, contudo, foram mudando. E, como se observa ainda no recentemente publicado 'The Greatest Albums You'll Never Hear', as visões sobre o que poderia acontecer "variavam consoante aquele com quem os entrevistadores iam conversando". O livro recorda declarações de Bono com referências às sessões antigas com Rick Rubin, falando de um álbum com "batidas e grandes guitarras".
The Edge, por sua vez, é lembrado ao dizer que o grupo adoraria a ideia de ter um novo disco mais cedo do que mais tarde, mas que tudo dependeria do tempo disponível. Já Adam Clayton é citado ao dizer que até terem dez canções acabadas, mixadas e organizadas numa prateleira, um álbum nunca é algo definitivo, acrescentando que "quando Bono ouve duas notas juntas ele ouve logo uma canção completa", ao passo que "qualquer outro que ouve duas notas juntas ali escuta um ponto de partida", lê-se no livro. Não seria a primeira vez que criariam um novo álbum com uma turnê em curso. No início dos anos 90, foi em plena turnê ZOOTV que gravaram 'Zooropa'.
Larry Mullen recorda no U2 BY U2, que "o espetáculo costumava terminar pelas 23h00" e que, mal saíam do palco, entravam "imediatamente nos carros" e seguiam direto para o aeroporto. "Como os espetáculos eram na Europa" estavam geralmente "uma ou duas horas à frente no fuso", por isso chegavam à Irlanda por volta da meia-noite e iam "diretamente para o estúdio". Trabalhavam duas horas, seguiam para casa, descansavam. Quando havia dois dias de intervalo trabalhavam no estúdio na tarde seguinte. E no dia seguinte voltavam ao aeroporto e seguiam para a cidade seguinte. "Ficamos nisto um mês. Foi uma loucura, mas foi uma boa loucura", conclui o baterista. As opiniões que registram no livro deixam claro que foi uma experiência que a todos satisfez. Larry nota que traduz "o som do U2 a se adaptarem a um novo ambiente de gravação", notando, em forma de elogio, que Edge "estava fazendo experiências e o U2 eram as cobaias". Adam diz que "é um disco estranho" e um dos seus preferidos. E Bono conta que foi a tentativa do grupo "de criar um novo mundo e não apenas canções", acrescentando que "é um belo mundo".
Se, pelo visto, a experiência de trabalhar em tempo de turnê, teve resultado em 1993, como seria agora? No curso da 360° outras novas canções surgiram e estrearam. Temas como "Return Of The Stingray Guitar", que acabaria por substituir "Kingdom Of Your Love" no início da noite, juntamente com a balada "North Star" e "Glastonbury", levantavam novas suposições sobre o que, em termos de discografia, seriam as possíveis cenas dos próximos capítulos. Bruno McDonald refere que, a dada altura (por volta de 2010), haveria no horizonte ideias para um eventual disco de dance, um de rock, o já muito falado 'Songs Of Ascent' e as canções para um musical baseado no personagem Homem-Aranha.
Sobre o musical 'Spider Man: Turn Off The Dark', na Broadway, Edge disse ao Guardian que houve bons momentos, deixa claro que não se arrepende de o ter feito, mas admite que a certa altura se transformou num pesadelo. Nota em particular que não gostou de se envolver com certos aspetos do espetáculo com os quais não se sentia confortável e que não quer voltar nunca mais a se envolver até aquele ponto com nada no futuro. No final do ano o grupo tinha protagonizado sessões com vários colaboradores, entre eles Will.i.Am, Danger Mouse e RedOne. Era preciso tomar decisões.
'Songs Of Ascent' foi ainda discutido publicamente por Bono numa entrevista em janeiro de 2012, mas as sessões com Danger Mouse abriram caminho para outras experiências... Por enquanto, o projeto (nunca terminado) mantém-se na gaveta.
Entretanto, a 360°, que aconteceu entre junho de 2009 e julho de 2011, tornava-se a mais rentável de todo o sempre, arrecadando 772 milhões de dólares em 110 concertos, superando assim os 635 milhões de dólares da A Bigger Bang Tour e os 495 milhões de dólares da Voodoo Lounge Tour, ambas dos Rolling Stones, que, juntamente com a Black Ice World Tour dos AC/CD (477 milhões de dólares) e a turnê The Wall Live, de Roger Waters (464 milhões de dólares) fazem o Top 5 dos palcos mais rentáveis de sempre no terreno pop/rock.
À procura de novos caminhos para um novo álbum, chegaram a experimentar uma possível colaboração com RedOne que se faz célebre por colaborar em The Fame, de Lady Gaga. Mas, como confessaria Adam Clayton à Rolling Stone, apesar do que reconhece como tendo sido os bons resultados dessa experiência, aquela não representava a essência daquilo em que o grupo "é bom". Em 2010 tiveram primeiras sessões com o produtor Danger Mouse, um dos dois elementos dos Gnarls Barkley e dos Broken Bells, e o ambiente acabou por entusiasmá-los. O mesmo Adam Clayton revelou ao jornalista da Rolling Stone que os discos do U2 preferidos de Danger Mouse eram 'POP' e 'Achtung Baby'.
Em um ano, o U2 tinha material suficiente para um álbum numa linha mais dominada pela presença eletrônica, tal como se escuta em "Sleep Like A Baby Tonight", de 'Songs Of Innocence'. Mas, já em fase de mixagem, sentiram que não tinham atingido o patamar desejado e que ainda havia trabalho a fazer. Numa altura em que Danger Mouse se juntara a James Mercer, dos The Shins, para gravar aquele que entretanto surgiu como o segundo álbum do seu projeto Broken Bells, o U2 voltou ao estúdio na companhia de Paul Epworth, Ryan Tedder, o velho parceiro Flood (com o qual haviam trabalhado nos dias de Zooropa) e Declan Gaffney.
O trabalho foi acontecendo pelo mundo fora, numa altura em que os elementos do grupo novamente compartilharam (como nos primeiros anos) os seus espaços de vida quotidiana. E de Rick Rubin com quem tinham trabalhado anos antes, chegou um conselho que os fez pensar em como a solidez de uma canção pode estar numa estrutura mais tradicional. O artigo na Rolling Stone nota que a Apple deu ao U2 uma data a cumprir.
Danger Mouse regressou na reta final dos trabalhos, tendo o U2 comentado a humildade com que encarou o fato de algumas canções em que agora procurava a forma final, estarem bem diferentes daqueles que deixara quando se havia afastado das sessões algum tempo antes.
'Songs Of Innocence' foi descrito como o álbum para o qual Bono escreveu canções mais pessoais, sendo que um amigo, via e-mail, chegou mesmo a perguntar-lhe se tinha finalmente feito seu primeiro disco aos 54 anos... O álbum teve uma turnê em espaços fechados ainda sob os efeitos da presença intimista destas canções, podendo passar os concertos para espaços ao ar livre quando finalmente chegar 'Songs Of Experience'. Um pouco como aconteceu com a Zoo TV Tour, que aconteceu em grandes arenas com 'Achtung Baby' e que, em 1993, ganhou dimensão de celebração em estádios quando chegou a etapa Zooropa (nome que acabaria por dar título ao álbum seguinte na discografia do grupo).
Sobre o próximo projeto, que tem como título de trabalho 'Songs Of Experience', Adam Clayton afirmou à Rolling Stone que o álbum terá "de ser relevante", caso contrário admite que acabará na gaveta e, eventualmente, transformado em outro disco. E para provar que o disco existe e que está em processo de criação, Bono chegou mesmo a citar à Rolling Stone um trecho da letra de uma nova canção que o título de trabalho é "The Morning After Innocence". E admite mesmo que 'Songs Of Ascent' poderá ainda ser lançado para fechar a trilogia. Por outro lado, o empresário do grupo falou à Time que há muito pelo caminho e revelações a fazer em breve. "Não há como parar este comboio", comentou à revista.
Este lançamento fez o grupo pensar como usar a nova tecnologia. "Porque ela está nos usando", comenta Bono à Rolling Stone. Isso levou-o a refletir que "deveria haver uma forma para levar estas canções a novos públicos". E por isso defende que tinham de começar de novo, lembrando que na essência daquilo que são como banda "está sempre aquele desejo por novos ouvidos, novos olhos, novos corações". Bono confessa à mesma reportagem que a coisa a que mais se agarrou na semana de como a que viveram após o lançamento do disco foi, "além de um guarda-chuva", a consciência de haver uma linha direta de diálogo com o seu público, que ele mesmo diz ter uma noção de que o U2 são em função da música "íntima" que têm "feito ao longo dos anos". É por isso em busca desse contato que partem de novo. E, goste ou não das opções tomadas com este álbum, com ele somaram mais um episódio de ousadia e desafio no currículo. Poucos com o seu estatuto o fariam.
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