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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Artista Vhils é o responsável pela capa de 'Films Of Innocence' e pelo vídeo de "Raised By Wolves"

O artista de Portugal, Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils, está no céu.
O U2 o convidou para fazer um video para a canção "Raised By Wolves", que fará parte de 'Films Of Innocence', apresentando o trabalho de 11 artistas/criadores diferentes fazendo visuais inspirados nas canções do álbum 'Songs Of Innocence'.
A versão digital de 'Films of Innocence', cuja capa é da autoria do próprio Vhils, será lançada em 9 de Dezembro, estando neste momento em pré-venda na loja iTunes. É possível que venha a existir uma edição em formato físico, mas ainda não está confirmado.
Tudo indica que Vhils também participará com trabalho visual na próxima turnê do U2.
Aos 27 anos, Alexandre Farto parece ter o mundo a seus pés. Está sendo um grande ano para este artista plástico português, vindo da rua, com um trajeto internacional consolidado, com muitas solicitações de galerias, museus, bienais e projetos especiais, do Brasil à China.
Na metade de setembro, estava no seu estúdio, onde finalizou o vídeo para o U2, e estava acompanhado de Namalimba Coelho, responsável pela comunicação da Fundação Berardo e também da galeria Underdogs, que Vhils dirige com a namorada, Pauline Foessel.
Ele colocou o vídeo no computador para que eles pudessem visualizar com cuidado. Ele assinou um contrato de sigilo total sobre o projeto com a equipe dos U2, que não pôde ser quebrado nos últimos meses. Nem alguns membros da sua equipe, e muito menos os figurantes, sabiam o que estavam fazendo em agosto, quando as filmagens do vídeo estavam acontecendo nas instalações da Lisnave. O próprio Alexandre só foi avisado há poucos dias da data de lançamento do filme.
“Gostaram?”, perguntava, ansioso. “Mas gostaram mesmo?”, voltava a perguntar. Quem convive regularmente com artistas sabe que a insegurança é normal. Faz parte do processo criativo. Apesar do prestígio já alcançado, ele continua vivendo todos os seus projetos como se fossem os primeiros. Não o exterioriza muito. É aparentemente tranquilo. Mas aquela chama inicial está lá.
Não é a primeira vez que ele faz um videoclipe. No novo vídeo do U2, reconhecem-se técnicas que já utilizara, como o recurso câmera-lenta, com os lobos correndo demoradamente por entre figurantes que caminham numa paisagem industrial. E também se vislumbram algumas das explosões que lhe deram fama.
Começou a pintar paredes aos 13 anos, mas foi quando começou a escavá-las ligeiramente que captou a atenção. A técnica consiste em criar imagens em baixo-relevo através da remoção de camadas de materiais de construção. Agora essa técnica é aplicada no vídeo do U2.
A canção não foi uma escolha sua, “mas foi perfeita para mim”, disse ele. O contato deu-se através da galeria que o representa em Londres, a Lazarides, a mesma de Banksy, por exemplo.
“Sabia através da minha galeria de Londres que já havia interesse da parte do U2 que fizesse coisas para os concertos, ao nível dos explosivos. Ou seja, sabia que já conheciam o meu trabalho e que existia afinidade com o que fazia. Agora acabou por concretizar-se esse interesse”, afirma.
O convite surgiu no final de julho, quando Alexandre se preparava para ir de férias, depois de meses esgotantes preparando a exposição Dissecação, inaugurada pouco antes no Museu da Eletricidade, em Lisboa.
“A minha primeira reação foi: ferraram as férias!”, disse, rindo. “Estava muito cansado por causa da exposição do Museu da Eletricidade e estava precisando desligar, mas com este convite era difícil. O U2 é uma referência, não só pela música, mas porque em tudo o que fazem existe uma atitude criativa, seja na comunicação ou nas turnês. Existe sempre uma preocupação em tentar fazer de forma diferente e nova e isso é motivador.”
Deslocou-se até Londres para ouvir em estúdio a canção ainda não finalizada e depois trabalhou as ideias visuais a partir da letra. “Só consegui fechar tudo quando tive acesso à canção final no fim de agosto”, revelou.
“Antes tinha apenas a letra e mesmo essa, no meio do processo, foi alterada. A letra acaba por conter uma série de referências que se adequam com o meu trabalho, no sentido em que existe um registo quase documental nas alusões às cidades. Foi perfeito ter uma linha condutora integrada no meu trabalho.”
O conceito e a concepção foram concretizadas até 20 de agosto. Seguiram-se nove dias de preparação, dois de filmagens, “foi um processo que demorou um mês”, afirmou.
A escolha do espaço da Lisnave, em Cacilhas, não foi acaso. É um lugar que o fascina. “Já tinha trabalhado lá no vídeo do Buraka, apesar de isso não ser muito evidente, mas o meu encantamento pela Lisnave vem de longe. Cheguei a entrar lá para pintar algumas vezes. É um espaço com enorme potencial e que está abandonado há não sei quanto tempo, porque ninguém sabe muito bem o que fazer com aquilo.”
Durante o processo criativo existiram contatos entre Vhils e a equipe do U2, mas a liberdade foi total. “Foi tudo feito aqui, sem nenhum envolvimento exterior. A partir do momento em que ficou posicionado que a minha ideia fazia sentido e percebi que eles ficaram motivados com ela, foi desenvolvê-la, através de mim e de outras pessoas, como o André Santos, em termos de edição.”
A reação em Londres foi excelente, afirma Vhils. “Existiram outros artistas convidados que optaram por trabalhar obras de animação, e parece-me que eles não estavam esperando nada daquela coisa do registo que criei. Mas a verdade é que sempre tive esta forte relação com o ato de filmar e é algo que gosto de explorar. Para mim é um videoclipe, mas é também uma peça.”
Ao contrário do que se possa imaginar, levando em conta a dimensão do U2, o orçamento para a realização do vídeo não foi muito elevado, segundo Alexandre. Sem citar números, garante que embora seja “um valor substancial para os dias de hoje”, não é nada significativo se em consideração “o que foi filmado ao longo de dois dias e as pessoas envolvidas”.
Estava disponível um grande número de figurantes. Mas mesmo assim, em determinados momentos, teriam sido necessários mais. É por isso que o próprio Alexandre entra numa das cenas. “Não foi opção, foi contingência”, disse, revelando que nem sempre foi fácil coordenar figurantes e lobos. Ou melhor, meio lobos, meio cães.
“Não foi fácil encontrá-los, mas acabou acontecendo em Mafra, são 40% lobos e 60% cães tchecos, e se portaram muito bem. Se fossem lobos puros seria provavelmente mais problemático.”
O vídeo para o U2, poderá acabar com algumas resistências ao trabalho de Vhils. “Talvez. Não sei”, afirma. “No momento sinto-me agradecido por perceber que todo este trabalho que tenho feito faz sentido. É bom sentir-me envolvido em projetos em que sou obrigado a chegar nos meus limites. A minha motivação para fazer este vídeo é a mesma que tenho quando faço uma obra ou uma peça. É apenas um meio diferente, nada mais.”

Do site: Público (Portugal)
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