Rolling Stone
Outro espírito feminino, muito vivo, preside a quarta faixa de 'Carnaval De Luz'. Chama-se "The Mirror Maker (Rosalía)" e, de fato, é sobre a cantora espanhola. "Normalmente, escrevemos músicas sobre pessoas na prisão ou pessoas mortas", diz Bono. "Sabe, heróis mortos, ou tentando tirá-los da prisão. Esta é apenas uma celebração de alguém simplesmente por ser uma artista extraordinária".
Como a maioria dos fãs de música, Bono é obcecado por Rosalía e sua obra-prima de 2025, 'Lux', que antecipou muitos dos temas que ele esperava explorar, inclusive o título Lux/Luz/luz. "Ela chegou ao mesmo ponto antes que nós, o que é irritante e também muito inspirador", diz Bono, que acredita que ela compartilha o objetivo de "reencantar o mundo" através da arte.
A música, que começa com um riff de guitarra acústica grandioso, digno de Pete Townshend, surgiu por volta de 2017 como uma demo de The Edge chamada "Kuti Rocker", indicando uma influência de Fela Kuti. Em diferentes momentos, também foi chamada de "Delilah" e "Child Of The Age". "A versão que estamos usando no álbum é a 196ª versão", diz Jacknife Lee. "Com uma letra completamente diferente. Foi muito difícil fazer isso, porque começou como uma música de rock and roll com guitarras elétricas, e nós ficávamos tentando trazê-la de volta para algo como Ziggy Stardust, com guitarras acústicas... O rock and roll pode ser muito masculino, e é desagradável quando é masculino demais. Então você precisa de um pouco de feminilidade, e é por isso que eu acho que Bowie funciona e T. Rex funciona... Não é rock machista".
Por volta da metade dessas 196 versões, segundo os cálculos de Lee, a música adquiriu seu tema. "Por que estamos cantando sobre Rosalía?", Lee se lembra da banda perguntando. "Qual a relevância disso?"
A resposta de Bono remonta a 'The Death And Resurrection Show', que ele leu pela primeira vez nos anos 90. ("A 'mágica' do showbiz é mágica de verdade", argumenta o autor Rogan P. Taylor, ligando os artistas ao xamanismo. "Ela extrai seu poder de um banco religioso imensamente bem abastecido". O livro também afirma que os antigos xamãs tendiam a perder um dos pais ainda jovens, o que certamente chamou a atenção de Bono). "Todos nós temos que lidar com um pouco de narcisismo", diz Bono. "Só o ato de escrever, ou pensar que alguém deveria se interessar por suas ideias — é muito fácil se perder no espelho. Ou simplesmente no que está refletido atrás de você quando se olha no espelho, o mundo que está atrás de você. Mas existem artistas que querem atravessar o espelho e ver o que há do outro lado. Patti Smith foi uma delas para mim quando eu era mais jovem. Existem muitas. Não o suficiente... Certamente Rosalía é uma delas. E é essa ideia de que somos corpo, alma e espírito. Essa ideia um tanto antiquada e pitoresca. E ela a aborda com muita coragem e um humor autodepreciativo incrível... Não se trata apenas de física, mas também de metafísica".
"É um pouco constrangedor que ela tenha se tornado tão popular antes de lançarmos a música", acrescenta. "Mas isso não importa para mim. Todo mundo também conhecia Martin Luther King".
Ele não se sentiu nem um pouco à vontade para lançar a música sem a permissão da artista, então, em um certo pânico, entrou em contato com uma amiga em comum, Penélope Cruz. "Liguei para Penélope: 'O que eu vou fazer?'", conta. "'É só ligar para ela'… Eu penso: 'Pareço um perseguidor'". Rosalía, segundo ele, levou na esportiva e "tem sido muito encorajadora e me feito rir bastante"; eles trocaram mensagens e conversaram sobre a admiração mútua pelo poeta Federico García Lorca. Ele ainda não a conheceu pessoalmente. "Acho que não conseguiria encontrá-la agora. Estou criando coragem para enviar a mixagem final para ela".
A música começa com o falsete de Bono, "imitando o soprano dela", como ele mesmo diz. "A ideia era tentar convencer a Rosalía a cantar", diz Lee. "Mas aí percebemos: por que alguém cantaria em uma música sobre si mesmo? Não faz sentido. 'Escutem como sou incrível!' Achei que ele cantava muito bem, então pensei: por que substituir a voz dele?"
Em março de 2024, Larry Mullen Jr. assistiu ao seu primeiro show do U2 como membro da plateia. Naquele momento, era totalmente incerto se ele conseguiria tocar novamente. Para a série de 40 shows no Sphere, em Las Vegas, seus companheiros de banda recrutaram um baterista substituto, Bram van den Berg. Mullen esperou até o 39º show para vê-los. "Eu simplesmente não queria chamar atenção", diz ele, mas essa não foi sua única hesitação.
A personalidade de Mullen é tão intensa quanto sua bateria; mesmo quando ele está fazendo piadas, a força do seu contato visual pode ser intimidante. Lee admite que certa vez teve "medo de Larry como pessoa", imaginando se Mullen poderia lhe dar um soco por algum comentário infeliz. Tudo isso mudou desta vez, com os dois ficando até tarde no estúdio juntos por horas, experimentando diferentes abordagens percussivas por conta própria, algo que Mullen nunca havia feito antes para nenhum outro álbum.
Em meio à sua enfermidade, Mullen canalizou toda essa energia para dentro de si. "Existe uma certa humilhação quando você se machuca e não consegue superar, e eu me senti humilhado", diz ele, sentado à mesma mesa de almoço à beira-mar na tarde seguinte, pronto para falar em detalhes pela primeira vez sobre sua jornada de volta ao U2. "E é minha própria merda — é minha própria merda".
A ideia de, de repente, estar fora de um coletivo do qual você sempre fez parte parece um pesadelo, mas "não foi tão ruim quanto você imagina", diz Mullen. "A banda estava fazendo o que precisava fazer. Aquelas partes de bateria são minhas, aquelas partes que eu tocava quando era garoto, muitas vezes sem realmente saber o que estava fazendo. E eu ouvia o Bram tocando essas partes muito bem, e eu era grato por isso. É estranho dizer isso, mas era verdade. Porque eu não tinha a sensação de ter ficado para trás. Todos aqueles sentimentos eram meus — eram sentimentos pessoais de humilhação. Mas não tinham a ver com a banda. Eram direcionados a mim mesmo".
Por anos, Mullen teve plena consciência de um problema no pescoço, uma fusão congênita em uma articulação facetária. Ele estaria bem se não estivesse constantemente agravando o problema ao bater em coisas com força, como parte de seu trabalho. "Se você não fizesse o meu trabalho, não notaria", diz ele, "e eu me safei por anos". Na etapa de 2019 da turnê de 'The Joshua Tree' do U2, isso começou a mudar. Ele sentia dores, e o tratamento médico que precisava todas as noites para conseguir tocar estava prejudicando-o a longo prazo. "Quando finalmente parei de fazer turnês, eu estava realmente muito mal".
Ele estava exausto após anos incessantes de turnês, mas ainda assim presumia que estava recuperado. "Eu simplesmente pensava que sempre me recuperaria", diz ele. "Eu sempre dou um jeito... Eu precisava de um tempo para mim. Eu só teria preferido reservar um voo para algum lugar em vez de reservar uma maca no hospital". Quando a Covid chegou, Mullen parou de tocar completamente. "Eu não estava tocando bateria no bunker, porque doía demais. Foi durante a Covid que percebi que estava fisicamente danificado... Eu me desliguei, todo mundo se desligou, e meu corpo simplesmente disse: 'Chega'."
Mesmo assim, Mullen concordou inicialmente com a residência no Sphere quando surgiu a oportunidade, por volta de 2022. "Eu me inscrevi para tocar", diz ele. "E aí, algumas semanas depois, meu fisioterapeuta me disse: 'Você não vai aguentar os ensaios. Então você precisa desfazer isso', o que foi muito difícil, muito complicado desfazer, porque eu já tinha assumido um compromisso".
Ele não teve problemas com seus colegas de banda continuarem sem ele. "Eu entendi perfeitamente", diz ele. "Negócios são negócios, e nada pode atrapalhar o processo, e eu aceito isso 100%. Então, a regra não escrita" — de que um membro da banda poderia ser substituído no palco — "se aplicava a mim naquele caso. Poderia se aplicar a outra pessoa em outro caso. E esse é o custo de se fazer negócios. É complicado ser amigo, ser cordial, estar nos negócios. Então, sim, todos nós temos sentimentos. Então, não vou mentir, foi difícil, mas ninguém me obrigou a fazer isso".
Ao assistir ao U2 tocar sem ele, Adam Clayton pensou nos músicos que foram substituídos em suas bandas "por capricho do vocalista". "Pensei em... como isso deve ser", diz ele. "Eu não tive essa sensação".
Por volta do início da temporada do Sphere, Mullen se juntou aos seus companheiros de banda no estúdio para gravar o single "Atomic City" e aparecer em um videoclipe. "Estávamos naquele momento em que não sabíamos se aquela seria a última vez que ele tocaria conosco", diz Adam Clayton. Baixistas e bateristas compartilham uma ligação única, e Adam Clayton vê seu relacionamento com Larry Mullen quase como um casamento. Tocar com um baterista diferente "parecia muito promíscuo", diz ele, por mais que admirasse o talento musical de van den Berg.
O futuro da banda parecia incerto. "Não sabíamos se Larry voltaria", diz Adam Clayton. "Poderíamos continuar? Iríamos querer continuar? Essa ainda é uma pergunta em aberto". Mas The Edge afirma que 'Carnaval De Luz' só existe porque Larry Mullen retornou. "Acho que não teríamos feito um álbum se o Larry não tivesse podido tocar", diz ele. "Teríamos simplesmente pensado: 'Por quê? Por que fazer um álbum sem o Larry Mullen? Não parece certo'."
