Na letra de "Resurrection Song" no EP 'Easter Lily' do U2, Bono usa a primeira parte do título de um livro que ele adora, 'The Death And Resurrection Show: From Shaman To Superstar' (O Show da Morte e da Ressurreição: De Xamã a Superestrela), que desenterra as raízes míticas do show business.
Bono leu pela primeira vez nos anos 90.
A linha "One time we had a lot of miles to go. Road sign, the death and resurrection show" na letra de "Resurrection Song" faz uma referência direta ao livro clássico da contracultura e da antropologia pop de 1985.
"A 'mágica' do showbiz é mágica de verdade", argumenta o autor Rogan P. Taylor, ligando os artistas ao xamanismo. "Ela extrai seu poder de um banco religioso imensamente bem abastecido". O livro também afirma que os antigos xamãs tendiam a perder um dos pais ainda jovens, o que certamente chamou a atenção de Bono.
"Todos nós temos que lidar com um pouco de narcisismo", diz Bono. "Só o ato de escrever, ou pensar que alguém deveria se interessar por suas ideias — é muito fácil se perder no espelho. Ou simplesmente no que está refletido atrás de você quando se olha no espelho, o mundo que está atrás de você. Mas existem artistas que querem atravessar o espelho e ver o que há do outro lado. Patti Smith foi uma delas para mim quando eu era mais jovem. Existem muitas. Não o suficiente... Certamente Rosalía é uma delas. E é essa ideia de que somos corpo, alma e espírito. Essa ideia um tanto antiquada e pitoresca. E ela a aborda com muita coragem e um humor autodepreciativo incrível... Não se trata apenas de física, mas também de metafísica".
A tese central do livro defende:
Origem Xamânica: O showbusiness moderno e o estrelato (a cultura das "superestrelas") não são apenas entretenimento comercial, mas sim uma evolução direta dos rituais dos antigos xamãs.
Performers como Curadores: Figuras icônicas do rock, pop e blues (como Jimi Hendrix, John Lennon e David Bowie) funcionam na modernidade como uma espécie de sacerdotes seculares. Através de suas performances extáticas, eles guiam o público por jornadas espirituais e servem como curadores de traumas coletivos.
A Jornada: O processo envolve um ciclo simbólico de adoecimento, descida ao "submundo" (morte) e retorno com poderes transformadores (ressurreição).
A citação se encaixa no conceito de 'Easter Lily'. O trabalho lida de forma muito íntima com temas de luto, mortalidade e recomeço, vindo logo após o retorno de Larry Mullen Jr. à banda após passar por cirurgia.
Ao evocar "the death and resurrection show" em uma música sobre peregrinação e a estrada, o U2 abraça o próprio papel mitológico: o de superestrelas do rock que transformam crises e o envelhecimento em uma grande performance ritualística de renascimento.
