No início dos anos 80, a crescente reputação como técnico virtuoso e mente musical eclética de Daniel Lanois chamou a atenção de Brian Eno, outro gênio dos estúdios, que recrutou Lanois para uma série de projetos de coprodução que culminaram no álbum 'The Unforgettable Fire' do U2.
Daniel Lanois contou: "Uma troca filosófica sempre faz parte da fórmula ao trabalhar com pessoas, mas há algo mais que sempre existiu comigo. Sempre fiz experiências fora da produção formal de discos. No Canadá, a antiga biblioteca da nossa cidade ficou disponível porque a biblioteca mudou de endereço e o prédio que desocuparam era uma belíssima e vasta construção dos anos 30. Tornou-se um espaço para eu experimentar com minhas sonoridades. Gravei algumas bandas na antiga biblioteca, o que me permitiu entender a acústica de corredores, mezaninos, banheiros, armários, cofres e grandes salas abertas.
Pude experimentar com microfonações interessantes: algo mais distante, algo um pouco mais próximo. Fiz isso simplesmente por curiosidade, para saber como diferentes ambientes soariam. Então, surgiu o convite para gravar 'The Unforgettable Fire' com o U2 na Irlanda, em um local incomum com uma grande variedade de salas, então eu já tinha alguma experiência. Isso já aconteceu algumas vezes, talvez por sincronicidade: alguém que tem uma ideia parecida com algo que me empolga vem até mim, e conseguimos colocar tudo em prática.
O setup inicial para o 'The Unforgettable Fire' foi no Slane Castle, na Irlanda. Ele fica às margens do Rio Boyne, onde ocorreu a Batalha do Boyne, decisiva para a tomada do controle da Irlanda pela Inglaterra. O maior cômodo foi o escolhido para a gravação, mas acabou sendo muito rápido e reverberante. Qualquer coisa com som muito preciso e rápido soava indefinida, então mudamos para a biblioteca, que era um cômodo retangular: muito alto e cheio de livros. Era denso. Tinha um bom impacto. Essa foi uma grande lição para mim e uma ótima lição para quem se interessa por isolamento acústico e não tem dinheiro. Basta pegar um monte de revistas e livros velhos que as pessoas estão jogando fora e improvisar algumas prateleiras, e você terá um som excelente.
Decidimos que precisávamos de um ambiente intimista para trabalhar nas letras – para fazer overdubs vocais, harmonias e desenvolver ideias para o baixo. Sempre tínhamos duas configurações. A configuração da biblioteca, que chamarei de sala de gravação, e a configuração mais intimista, a sala de controle, com sofás onde as pessoas podiam se sentar com microfones vocais. Assim, era possível combinar as duas opções: improvisar na sala da banda ou intelectualizar e focar em harmonias mais específicas, e assim por diante. A sala de controle permitiu que músicas como "MLK" tivessem um som muito bonito e natural, com o Bono. Usei um microfone Sony C500, para os entendidos em tecnologia. É difícil encontrá-lo hoje em dia porque está todo quebrado, mas eu tinha um novinho em folha e ele tem um agudo muito suave.
As pessoas gostam de emoção e surpresas. Seja trabalhando em um castelo, um galpão ou qualquer outro lugar que você escolha, acredito que personalizar o ambiente para o projeto em si gera um nível extra de comprometimento. Se você cria um estúdio específico para o disco em que está trabalhando e não precisa desmontá-lo às 17h para a próxima sessão, então você está realmente construindo um som personalizado para aquele disco".
