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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Steve Lillywhite explica como o trabalho de Brian Eno é "odiar o U2"


Steve Lillywhite

"Comecei como baixista, mas só consegui um emprego em um estúdio aos 16 anos. Comecei como operador de fita em 1972 no Phonogram Studios — um estúdio afiliado a uma gravadora. Tinha um estúdio e duas salas de cópias para a gravadora. 
Acho que a equipe era de 11 pessoas, o que era um absurdo. Tínhamos três técnicos em tempo integral, que saíam para os subúrbios às seis da tarde todos os dias. Eu era realmente um operador de fita, provavelmente mais do que qualquer outra pessoa na indústria da música, porque o estúdio em que eu trabalhava era o último no mundo que tinha uma sala de máquinas separada. Existia a sala de controle e a minha sala se chamava Sala B. Eu tinha uma pequena caixa de som Auratone, um microfone de pescoço de cisne na mesa e uma janela para que eu pudesse olhar para cima e ver o engenheiro. Eu sentava ao lado do gravador e ele me dava os comandos para iniciar e parar. Uma entrada ou inserção de fita era chamada de "cue to press". Eu ficava sentado lá por horas e horas, dias e dias a fio, rebobinando. Me disseram que eu nunca podia participar da conversa na sala de controle. Se eles estivessem fazendo uma piada lá dentro, não podiam ouvir meu interfone tocando de repente. Me disseram para ser humilde. Eu ficava sentado ouvindo a fita, e se eu pensasse: "Ah, talvez eles queiram gravar o segundo verso de novo", no final da música eu voltava direto para o começo do segundo verso e parava a fita. Eles estavam discutindo, e diziam: "Ok, podemos gravar o segundo verso de novo?" Bum! Eu queria ser o mais rápido, porque era um trabalho muito simples. Era literalmente só isso que eu fazia. Eu operava o gravador de duas faixas para mixagem. Eu também operava as outras máquinas de duas faixas para delays e coisas do tipo. A gente sempre passava o reverb de placa EMT por um delay de fita de 15 ips.
Foi uma ótima experiência de aprendizado. Eu não era muito bom na parte técnica; e não entendia de engenharia de som por muito tempo, porque nunca estava na sala de controle. Eu não estaria aqui hoje se não fosse pelo meu chefe me dar uma chance. Em outros estúdios, os operadores de fita aprendiam a trabalhar observando. Eu não podia fazer isso lá, porque eu sempre tinha que estar na minha estação. Nos fins de semana, podíamos levar nossos próprios projetos para o estúdio para aprender. Eu literalmente estava tentando fazer alguma coisa na sala de controle, correndo para a outra sala para gravar e depois voltando correndo!
Trabalhando nos fins de semana, consegui gravar algumas demos com uma banda chamada Ultravox, o que lhes rendeu um contrato com uma gravadora. Tirei algumas semanas de férias do meu trabalho para gravar o álbum de estreia do Ultravox.
A Island Records contratou a banda e disse: "Quem é Steve Lillywhite? Vocês precisam de outra pessoa". Eu nunca tinha gravado um disco antes, então foi bem compreensível. A banda respondeu: "Bem, nós gostamos de Roxy Music". Brian é um cara fantástico. Ele não passa o tempo todo no estúdio, mas quando está lá, ele realmente aproveita ao máximo. Eu sou muito mais envolvido e fico controlando tudo nos mínimos detalhes. Tentei ser como o Rick Rubin, aquele cara que "fica de fora e observa o panorama geral", mas eu preciso estar lá, colocando a mão na massa. Mas essa foi a primeira vez que conheci o Brian, e depois disso só o vi de novo durante as gravações de 'The Joshua Tree'. Eu me dou muito bem com ele. Ele é uma das pessoas mais inteligentes do mundo. Temos uma ótima relação.
Acabei saindo daquele estúdio e aceitei uma redução salarial para ir trabalhar no estúdio da Island Records em 1977. Foi lá que conheci Chris Blackwell, que tem sido um homem absolutamente fantástico e um mentor para mim em muitos aspectos, não apenas na música.
Não colaborei muito com Brian Eno nos álbuns do U2. Eu não produzi esses álbuns, com exceção de 'Atomic Bomb', que produzi, de uma maneira diferente. Para 'The Joshua Tree', 'Achtung Baby', 'All That You Can't Leave Behind' e 'No Line On The Horizon', sempre fui chamado no final para ajudar a finalizar.
O que é ótimo é que a banda faz alguma coisa e aí o Brian pega as fitas, vai para o quartinho dele, tira todos os elementos orgânicos do U2 e substitui por coisas que são a cara do Brian. Aí eu entro, pego o que o Brian fez, mas volto ao que a banda fazia originalmente e tento dar sentido a tudo. Eles adoram o ódio do Brian por tudo que é rock. Esse é o trabalho do Brian, odiar o U2. E eles gostam disso! Ele gosta deles como pessoas, mas no geral não é muito fã de rock. Ele tira as guitarras e coloca bateria eletrônica. Eu entro e uso um pouco do que ele faz, combinando com coisas mais orgânicas do começo. A gente tenta deixar as coisas um pouco mais únicas. Eu sei que as bandas têm que viver em um certo mundo, e tem gente que quer ouvir guitarras em um disco do U2".
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