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quinta-feira, 20 de março de 2014

Homenagem à Ayrton Senna ficou de fora das apresentações do U2 no Brasil em 1998 na turnê Popmart

O "homem que conseguiu trazer o U2", o empresário Franco Bruni transformou-se, no transcorrer do dia da primeira apresentação do U2 em São Paulo em 1998, do homem que não teve culpa de nada que deu errado (ou seja, quase tudo) no Rio de Janeiro, para o homem que não teve culpa de nada que deu certo (ou seja, quase tudo) na estréia em São Paulo.
A Folha de São Paulo na época acompanhou o dia de Bruni, minuto a minuto, presenciando sucessão de passeios de uma Alice no País das Maravilhas (São Paulo), quem diria, mas convertida em metralhadora giratória que devolvia a culpa dos problemas antes enfrentados a quem quer que surgisse no caminho.
Pela manhã, Franco Bruni, equipe e seguranças saem do hotel Sheraton Mofarrej numa mercedes prateada (a mesma que buscou Bono no aeroporto, no Rio). Tranquilo.
"O controle da C&A foi terrível, feito à mão. Não consegui entender porra nenhuma sobre as vendas de ingressos até agora", dizia, logo pela manhã, para justificar não possuir dados concretos sobre vendagens de ingressos.
Enquanto rumava à Polícia Militar, para uma reunião sobre segurança, lembrava o show carioca: "Quando vi que a coisa ia ficar feia, mandei soltar a boiada das roletas. O governo carioca entregou a cidade às moscas."
Eximiu-se, também, de culpa pela venda irregular de ingressos no autódromo pela segurança que contratou. "Dizem que houve corrupção na segurança. Caguei. Como vou controlar isso?"
Na parte da tarde, saem para o aeroporto de Congonhas, para esperar o U2, sob notícias de desorganização no esquema de segurança da operação. Tenso.
Bruni dá um punhado de moedas a um menino num sinal próximo ao aeroporto. Benemerente. Chegam à empresa aérea Líder às 15h50. Amedrontado.
Toma suco de maracujá. "Eu saí fora da segurança, deixei Carlão (Carlos Martins) nisso. A banda é desobediente", conversa ao telefone. Dá ingressos às funcionárias da Líder. Nervoso.
Às 18h05, encontrava-se com a primeira-dama de São Paulo, Nicéa Pitta, para uma reunião sobre atividades assistenciais. "Admiro e apoio você. Não faço mídia nem média, é por amor ao próximo", afirmou a primeira-dama, as duas mãos dadas às de Bruni.
Bruni disse ir mostrar a Nicéa por que pleiteava a isenção do ISS sobre a arrecadação dos shows - pedido que teria sido aceito e depois cancelado, segundo ele por ingerência de um empresário de shows junto a Celso Pitta.
"A razão social é a única que me move a encarar essa empreitada. Quero usar o dinheiro que seria destinado ao ISS para construir uma fazenda para menores perto de Aparecida do Norte", afirmou.
"Vou fazer cem minifazendas para menores carentes nos próximos 15 anos. Quem fala isso é o homem que trouxe o U2 e parou o trânsito do Rio de Janeiro", disse.
Sem querer, admitiu que não era responsável direto pela ordem que sobrevoava São Paulo. "Estou com César Castanho: aqui é outro país." Da primeira-dama, correu ao U2, que estava para chegar ao aeroporto. No carro, tocava um CD pirata com gravação da "PopMart" em Roterdã.
"A maior malandragem é ser honesto, já dizia vovô", proferiu, defendendo sua integridade.
O jato chega a Congonhas com o U2. Bruni segue ao Morumbi num dos dois helicópteros que levam o U2 - o de Larry e Adam.
Não pôde negar certo estremecimento na relação com a banda. "Eles ficaram irritados com a propaganda da Skol, e Paul McGuinness (empresário da banda) me detonou para a imprensa, para a MTV mundial, para todo mundo. Não tenho culpa se a TNA, com quem fiz o contrato, não avisou a eles do comercial. Eu avisei."
A ideia de Bruni no início era que o U2 tivesse no Brasil como abertura, nomes como Oasis, Prodigy, Barão Vermelho, Lulu Santos, Rage Against The Machine ou Fun Loving Criminals.
Ainda em 1997, ele comentou: "Se houver necessidade de pagamento extra por nossa parte, prefiro pagar para ter bandas nacionais. Penso no Lulu Santos e em algo em apoio à Sociedade Viva Cazuza, talvez um show do Barão Vermelho com convidados".
Mas o que restou foi Gabriel O Pensador. E uma banda vencedora da edição do Skol Rock, Bootnafat.
Uma atração desejada por Bruni, ligada à atividades assistencialistas, e que ele afirmava estar fechada, era uma homenagem - em formato indefinido - à Ayrton Senna.
Meses antes da apresentação da banda, Bruni comentou: "O U2 avaliza tudo que envolva causas sociais, como é o caso do Instituto Ayrton Senna, que tem programas de apoio à criança. A homenagem está confirmada, só não sabemos como será feita."
Mas a coisa toda mudou nos dias dos shows no Rio e São Paulo: "Não tenho problemas com o U2. Mas estou com as fitas de homenagem a Ayrton Senna, que queria inserir no show - pergunta se tenho coragem de chegar à banda e pedir isso. Não tenho."
Já no Morumbi, trancou-se numa reunião de três horas - na pauta, direitos autorais arrestados pelo Ecad, lotação permitida pelo Contru, segurança do U2 à saída do estádio, bilheterias.
Reunião encerrada, desce para a beira do gramado do Morumbi pela primeira vez, com o estádio lotado. "Fui roubado pra caralho, mas tá aí." Emocionado. Esqueceu os problemas ao ouvir "Mission: Impossible" e correu à panorâmica privilegiada do camarote da MTV. Abraça os capos da rede de TV. "Sete anos e meio!", diz. Alegre como criança. Conversa, recebe abraços, posa para fotos e não presta atenção no show. Estufado.
Era hora de cerco de bajuladores, assédio de fotógrafos, uma ou outra espiada no show.
Entra no camarote vip do Morumbi. Conversas sociais. Bebe uma Pepsi ("Não bebo álcool").
"Espera, deixa eu ouvir essa música", interrompeu um interlocutor, já aos últimos acordes de "Sunday Bloody Sunday". "Ela é gorda, mas a dança é supersensual", comentou, ao admirar a bailarina que tomava o telão durante o solo do megalimão.
Show terminando, só tinha uma palavra a dizer: "Fiz". E ainda dispararia para uma entrevista coletiva, o peito estufado pela expectativa de reverter o bombardeio que sofrera na mesma situação, no Rio. Alice atravessou o espelho.
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