
Aquele ar de zombaria – é algo de se admirar. Elvis tinha isso, claro. E os Rolling Stones tinham um ar de zombaria que, se você prestar atenção no título da música, não passou despercebido por Bob. Mas o ar de Bob Dylan em “Like a Rolling Stone” é capaz de transformar vinho em vinagre. O pugilismo verbal escancara o ato de compor para uma geração toda e deixa o ouvinte na lona. “Like a Rolling Stone” marca o nascimento de um iconoclasta que dará à era do rock sua maior voz e seu maior vândalo. Este é Bob Dylan como um Jeremias de versos amorosos e românticos, despejando uma tempestade flamejante de palavras imperdoáveis. Tendo criticado duramente a hipocrisia do corpo político, ele agora começa a cutucar inimigos que são um pouco mais familiares: a “cena”, a alta sociedade, a “gente bonita” que pensa que “está por cima”. Aqui, ele ainda não entrou em suas próprias hipocrisias – isso viria mais tarde. Mas a diferença entre “nós” e “eles” não é tão clara quanto em seus primeiros álbuns. Aqui, ele mostra seus dentes afiados para os descolados, a vaidade da época, a ideia de que alguém tinha mais valor se estivesse usando o par de botas certo. Para alguns, os anos 60 foram uma revolução. Mas havia outros que estavam erguendo uma guilhotina em Greenwich Village, não para seus inimigos políticos, mas para os que consideravam “quadrados”. Bob já começava a adotar essa ideia, mesmo considerando que ele já era a melhor encarnação dela, o cara de cabelo encaracolado que Jimi Hendrix mais tarde admitiria ter imitado. O empilhamento de palavras, imagens, ira e melancolia em “Rolling Stone” daria o formato para formas musicais que só viriam a surgir dez ou 20 anos no futuro, como o punk, o grunge ou o hip-hop. Observando a personagem nos versos, você se pergunta: “O quão rápido ela deve ter ido de socialite a alguém que implora pela próxima refeição?” Talvez seja um vislumbre do futuro; talvez seja só ficção, um roteiro de cinema destilado em forma de canção. Deve ter sido difícil ser Dylan ou conviver com ele na época; seu olhar sempre alerta estava focado em tudo e em todos. Mas, apesar do discurso raivoso, a verdadeira peça pregada está em seu humor agudo. “Se você não tem nada, não tem nada a perder” é o slogan de camiseta. Mas a frase de que gosto mais é: “Você nunca olhou em volta e notou os cenhos franzidos dos malabaristas e dos palhaços/ Quando todos eles fizeram truques para você/ Você nunca entendeu que isso não é legal/ Você não devia deixar que as outras pessoas se divirtam por você”. A execução da faixa – destacando o guitarrista Mike Bloomfeld e o tecladista Al Kooper – é tão vívida e imediata que é como ver a tinta espirrando na tela. Como é costume de Bob no estúdio, os músicos não conhecem a música totalmente. Eles ainda a estão conhecendo, e você consegue sentir o prazer da descoberta ao mesmo tempo em que eles a experimentam.