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quarta-feira, 25 de março de 2026

Um dia nas gravações de 'No Line On The Horizon' do U2


Bono entra no lounge do Olympic Studios, no sudoeste de Londres. "Acabei de escrever essa letra e quero testá-la".
No estúdio adjacente, onde Steve Lillywhite, produtor de longa data do U2, o aguarda, Bono abre seu Macbook Air e acessa um arquivo. "Acho que consegui rimar 'life' com 'life'", observa, revirando os olhos. "Já ouviram aquela sobre o letrista irlandês?"
Ele pega um microfone enquanto Lillywhite prepara a faixa, uma música meditativa e de ritmo lento chamada "Every Breaking Wave", que gradualmente cresce até um clímax repleto de paixão e intensidade. Bono começa a cantar, balançando para frente e para trás em sua cadeira de estúdio, sua voz saindo simultaneamente das caixas de som gigantes, enquanto ele executa uma performance vocal quase perfeita que usa o movimento do oceano como metáfora para a luta humana, antes de chegar ao verso comovente: "I don't know if I'm that strong". Dois takes e dez minutos depois, está pronta.
O U2 está com três estúdios diferentes no Olympic, trabalhando a todo vapor, nas duas últimas semanas de gravação para cumprir o prazo que permitirá o lançamento de seu décimo segundo álbum de estúdio, 'No Line On The Horizon', no primeiro trimestre de 2009. O sucesso de 'All That You Can't Leave Behind' (2000) e 'How To Dismantle An Atomic Bomb' (2004) estabilizou o U2 após a instabilidade do final dos anos 90. Agora, o clima na banda é de que eles podem se dar ao luxo de ousar um pouco mais. 
Lillywhite informa, alegremente, que as duas últimas semanas de produção de qualquer álbum do U2 são um "caos". Tudo está em aberto: letras ainda estão sendo escritas, algumas músicas estão sendo completamente reformuladas e outras simplesmente descartadas. Lá em cima, no Estúdio 1, os engenheiros se preparam para gravar as partes de bateria com Larry Mullen Jr. Lá embaixo, no porão, Brian Eno trabalha em uma faixa acústica evocativa com arranjos de cordas, chamada "Winter". Eno, Lillywhite e o co-produtor Daniel Lanois formam a equipe de estúdio que trabalhou em todos os álbuns principais do U2, desde 'The Unforgettable Fire', de 1984, até 'All That You Can't Leave Behind'.
Bono se acomoda em um sofá no lounge. 'No Line On The Horizon' está se configurando como uma obra expansiva, em alguns momentos remetendo à música panorâmica do U2 dos anos 80, mas com nuances da irreverência e inovação sonora características da banda nos anos 90 em outros. Sua criação envolveu uma jornada tipicamente épica para o grupo, que começou quase imediatamente após o último show da turnê 'Vertigo' em Honolulu, em setembro de 2006, com trabalhos preliminares com Rick Rubin, antes de seguir para sessões de composição experimental com Eno e Lanois em Fez, Marrocos, no verão de 2007, e períodos subsequentes em Dublin, França, Nova York e, finalmente, Londres.
Segundo o vocalista, 'No Line On The Horizon' – título inspirado na vista da janela de seu escritório na costa irlandesa em um determinado horário do dia, quando o mar parece se fundir com o céu – é dividido em duas partes: Escuro e Claro. "Na minha cabeça, tudo acontece ao longo de vinte e quatro horas", diz ele. Em vez de cantar em primeira pessoa, Bono diz que desta vez está adotando uma abordagem mais novelesca para suas letras, que são habitadas por um elenco de personagens fictícios.
Quatro dias depois. São pouco mais de 20:00 e Eno, Bono e will.i.am, do Black Eyed Peas, estão no Estúdio 1 do Olympic, compondo a parte do violoncelo para uma música chamada "Breathe", que o U2 — de forma um tanto ambiciosa — está apenas começando a gravar nestas duas últimas semanas, sem falar na mixagem. "É assim que as coisas são com a gente", observa Bono, calmamente. ""Zoo Station" só tomou forma nos últimos três dias de 'Achtung Baby'." O cantor pega um microfone e solta um vocal vibrante com direito a vendedor ambulante, uma cacatua e um refrão que começa: "Step out into the street... sing your heart out".
Ele pede ao engenheiro de som para gravar uma nova mixagem da faixa-título, que em questão de dias passou de uma balada atmosférica para um rock punk extasiante. Bono se vira para sussurrar. "Observe a cara do Brian", diz ele, maroto. "Ele não gosta de rock".
De volta à sala de estar, o cantor retorna ao sofá antes de se entregar a duas taças de vinho e "apenas um cigarro".
Levantando-se do sofá, Bono volta ao estúdio adjacente, onde Edge e Steve Lillywhite ouvem uma mixagem preliminar de "Every Breaking Wave", que agora soa gloriosamente épica e quase completa. Já se aproximam das 23:00, e eles estão pacientemente aprimorando sua música, mesmo com o prazo final se aproximando.
"Se fizermos isso direito", diz Bono, gesticulando na direção das caixas de som do estúdio, "2009 será nosso".
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