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sábado, 17 de outubro de 2026

Bono e The Edge falam ao The New York Times sobre sua longa relação de trabalho, amizade e o que o U2 ainda significa - 3° Parte


Sempre tive curiosidade em saber o que seu antigo empresário, Paul McGuinness, disse a você depois de toda aquela confusão com o iTunes, quando você colocou o então novo álbum no iTunes das pessoas sem pedir permissão. Paul deve ter dito algo sobre isso.

Bono: Ele disse praticamente a mesma coisa que Tim Cook disse quando apresentei a ideia a ele: Você passou a vida inteira fazendo as pessoas pagarem por música. Por que você iria querer dar algo de graça? Quer dizer, estávamos experimentando. Queríamos ver se conseguiríamos que a Apple ou outra empresa pagasse pela nossa música e a distribuísse. E olha, vai ser preciso muita experimentação para consertar o mercado da música. É impressionante o quanto outros músicos recebem pouco, e isso é assustador. Mas sim, a culpa foi toda minha.

Foi um erro que prejudicou sua reputação?

Bono: Eu exagerei nessa.

The Edge: A gente corre riscos. Tem que correr. Então a gente falha, a gente cai de cara no chão às vezes. Faz parte do trabalho.

Edge, você mencionou tocar ao vivo. Há planos para uma turnê no ano que vem?

The Edge: Há sim.

Suas turnês são sempre conceituais de alguma forma. Qual é o novo conceito?

Bono: Bem, o título do álbum já dá uma pista.

The Edge: Não podemos entrar em muitos detalhes porque os planos ainda estão se formando, mas estamos interessados nessa interseção entre xamanismo e show business. Todos os grandes artistas, em certa medida, precisam realizar um truque de mágica, o que os leva a um lugar misterioso. E funciona nos dois sentidos: os grandes políticos da atualidade, que infelizmente, em muitos casos, são extremamente perigosos, são muito xamânicos. Eles deslumbram as pessoas com uma atuação. É o lado do vendedor de óleo de cobra. E estamos vivendo em uma era pós-verdade porque, infelizmente, existem muitas oportunidades para disseminar narrativas falsas, e isso está sendo explorado. Nossos pontos fracos podem ser facilmente manipulados, principalmente quando o medo é a arma utilizada. Então, estamos explorando esses temas de uma forma positiva e negativa. A letra da música "Silencio" resume esses dois extremos. Os dois tipos de silêncio. O silêncio contemplativo, meditativo, reflexivo é algo belo. Mas o outro tipo de silêncio é aquele em que você se sente intimidado e tem medo de falar porque, se disser algo errado, será punido, poderá ir para a cadeia, será ostracizado, e isso é extremamente perigoso.

Bono: Tem um poema do Michael Leunig. "Só existem dois sentimentos, amor e medo. Só existem duas linguagens, amor e medo. Só existem duas atividades, amor e medo. Só existem dois motivos, dois procedimentos, duas estruturas, dois resultados, amor e medo. Amor e medo". Há muito amor nos nossos shows, e não é aquele amor do tipo "vamos lá, pessoal", "vamos todos nos abraçar". Acho que existe uma profundidade num show do U2 onde pessoas que normalmente não concordam politicamente umas com as outras se sentem seguras. Tenho muito orgulho disso. Se elas estão nos Estados Unidos, queremos que se sintam muito bem com a escolha de provavelmente pagar caro demais para nos ver. Mas vamos desafiá-las.

Imagino que você tenha alguma influência sobre os preços dos ingressos.

Bono: Bem, o grande problema do mercado de shows ao vivo é justamente essa: pouca influência. Mas o que fazemos na nossa banda é reservar os melhores lugares da casa e garantir que sejam, muitas vezes, os mais acessíveis. Também não temos problema nenhum em separar as pessoas ricas de seu dinheiro.

Para finalizar, gostaria de fazer uma pergunta mais abrangente. Mesmo durante esta conversa, fica claro que o U2 reflete sobre a história que todos estamos vivendo e sobre o que a banda pode oferecer a essa história. Mas vocês estão na ativa há 50 anos. Isso não dura para sempre. Eu sei em que ponto da história o U2 se encontra agora, e vocês têm alguma ideia de como gostariam que essa história terminasse?

The Edge: Ainda estamos extremamente inspirados e ativos criativamente, e há muitas músicas que ainda não foram lançadas, que ainda precisam ser finalizadas. Então, não consigo imaginar isso terminando tão cedo.

Bono: Edge, acho que ele pode se interessar pelo seu discurso para a banda outro dia, sobre o que aconteceria se você tivesse que encontrar outra banda.

The Edge: Esse é outro motivo pelo qual ainda estou no U2. Às vezes, no início, eu pensava: "Isso é muito difícil, eu realmente deveria sair desta banda", e começava o diálogo interno. "Então, o que você quer fazer da sua vida?" E eu diria: "Bem, eu sou uma pessoa criativa, e a música é meio que a minha principal atividade, então eu continuaria na música". "OK, você quer cantar?" E eu responderia: "Eu realmente não quero ser o vocalista. Estou feliz sendo guitarrista". "Então, qual é o vocalista com quem você mais gosta de trabalhar?" E eu diria: "Bem, claramente o Bono". Então, OK, eu farei um projeto solo, mas o Bono será o vocalista. Aí, "Qual é a melhor seção rítmica para vocês?" Eu diria: "São o Adam e o Larry, não é?" OK, então será uma banda solo com o Bono nos vocais, eu serei o guitarrista e o Adam e o Larry serão a seção rítmica. Basicamente, eu redesenharia o U2. Então, sim, não há dúvida. É aqui que eu pertenço.

Bono: Acho que o mais provável é que as pessoas se cansem de nós e que nós nos cansemos de viajar para encontrá-las, o que faz com que elas também se cansem de nós. Acho que se continuarmos tocando ao vivo até cairmos mortos, sempre haverá público. Mas temos um problema nesse sentido: fizemos uma promessa um ao outro quando tínhamos 18, 17, 16 anos, de que jamais subiríamos a um palco sem dar tudo de nós. E ainda não quebramos essa promessa. Já tivemos brigas no palco, nos bastidores, loucuras, mas nunca a quebramos.

The Edge: É, nunca foi apenas entretenimento para nós, nunca. Sempre foi algo com muito mais importância e significado. Alguns dos primeiros shows que vimos foram do The Clash em sua primeira turnê, Buzzcocks, The Jam e Talking Heads. Então, quando você está cercado por esse tipo de senso de urgência e aspecto ideológico, você não pode levar essas coisas na brincadeira. É muito mais do que apenas entretenimento. Bono: É o que dizem sobre o futebol: não é uma questão de vida ou morte. É algo muito mais sério do que isso.
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