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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

The Edge ao Estadão: "O que sempre perguntamos é: 'o que nunca foi feito antes?'. Não será diferente nesta turnê, estamos tentando fazer coisas novas e bastante ambiciosas"



Estadão

São 50 anos de U2. Com o mesmo ímpeto de quando fizeram seu primeiro show, em 1976, na escola Mount Temple, em Dublin, onde se conheceram, Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. seguem fazendo um rock operístico, carregado de ativismo, fé e sustentado por um sólido ego coletivo.
"Nós crescemos juntos e somos amigos de verdade. Conhecemos nossos pontos fortes e nossas fraquezas. Muitos anos atrás, decidimos que, se trabalhássemos juntos e apoiássemos uns aos outros, teríamos boas chances de criar algo em que todos saíssem ganhando", diz The Edge ao Estadão, em entrevista por videoconferência.
"Somos o melhor exemplo de cooperação genuína dentro de um grupo. Abrimos mão dos nossos egos individuais para assumir um ego coletivo da banda, no qual queremos que o conjunto tenha sucesso em todos os aspectos", complementa.
Em 2026, o grupo voltou com tudo. Após nove anos sem soltar um álbum de músicas inéditas, lançou dois EPs em feriados cristãos, 'Days Of Ash', na Quarta-Feira de Cinzas, e 'Easter Lily', na Sexta-Feira Santa. Os registros antecederam o disco 'Carnaval De Luz', batizado em português e que será lançado em mídia física e nas principais plataformas de streaming em 13 de novembro.
O título com referência ao Brasil nasceu inspirado por uma viagem feita pelos roqueiros ao carnaval da Bahia, em 2006, acompanhados por Gilberto Gil e o produtor Quincy Jones.
"Sempre sentimos que fomos privados de alguma coisa, porque, na Irlanda, apesar de ser um país muito católico, nossa versão do carnaval era a terça-feira de carnaval, quando ganhávamos panquecas no café da manhã. Essa era a nossa versão da festa", lamenta Edge.
"À medida que passamos a conhecer melhor a expressão latina dessa celebração, começamos a compreender essa liberdade e capacidade de celebrar a humanidade e o corpo".
O U2 sempre foi movido pela fé – e não necessariamente pela religião. Seguidores de Cristo, mas carregando alguma dose de agnosticismo, os músicos se inspiraram em salmos para faixas como "Gloria" e "40".
A tendência também é notada em 'Carnaval De Luz'. Nos videoclipes já divulgados, é possível encontrar referências bíblicas. No single "Silencio", há uma menção ao Cristo Redentor e ao Pai, o Filho e o Espírito Santo. Em "Streets Of Dreams", o eu lírico pede para Deus ouvir seu clamor. Já na contemplativa "The Greatest Show On Earth", uma mulher atravessa o deserto carregando uma cruz.
Da nova safra, destacam-se "American Obituary", uma homenagem a Renée Good, morta por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), em Minneapolis, nos EUA, e "If The World Is At War We Better Not Be", cujo título antiguerra faz alusão aos conflitos recentes envolvendo Ucrânia, Irã, Estados Unidos, Israel e Palestina.
"As pessoas sabem das nossas origens e sabem que, quando nos posicionamos, é algo que foi muito bem pensado. Posicionamentos binários e simplistas raramente ajudam a resolver um problema complexo. Queremos ser úteis; não queremos parecer cool", afirma Edge sobre como o público recebe o posicionamento da banda acerca de determinados assuntos.
"Hoje estamos atravessando uma cultura incessantemente negativa, em grande parte devido à maneira como as redes sociais afetaram a comunicação. As pessoas estão vivendo um período de muita ansiedade, depressão, desesperança e desânimo. Se queremos que as pessoas se interessem pelo que está acontecendo no mundo, elas precisam sentir que seus esforços podem fazer a diferença".
The Edge conta que o U2 possui um processo de composição incomum. "Costumamos dizer que construímos a casa começando pelo telhado. Meu trabalho, suponho, é dar o pontapé inicial com a música, para que exista um ponto de partida. A letra, na maioria das vezes, é a última parte da equação, nascendo do sentimento evocado pela música".
Aos 50 anos, o grupo parece continuar movido pela mesma inquietação que o levou a subir aos palcos pela primeira vez: a de fazer da música algo que ultrapasse os limites do entretenimento, algo que Edge define como "transcendência".
"Acordo todas as manhãs sentindo que hoje pode ser o dia em que vamos fazer a melhor canção que já escrevemos", confessa. "Sinto que tenho o melhor trabalho do mundo".
Para 2027, está programada a turnê mundial 'The Greatest Show On Earth', que já tem quatro datas agendadas no Estádio do MorumBis, em São Paulo, no mês de março. Será a primeira vinda ao País em uma década e Edge evita dar detalhes do evento musical que promete ser o mais cobiçado do próximo ano.
"Trabalhamos há anos com alguns dos melhores profissionais do mundo, que fazem grandes turnês para os maiores artistas do planeta. O que sempre perguntamos a eles é: 'o que nunca foi feito antes?'. Não será diferente nesta turnê: estamos tentando fazer coisas novas e bastante ambiciosas", adianta.
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