O U2 se prepara para lançar 'Carnaval De Luz', seu 16º álbum de estúdio, no dia 13 de novembro de 2026. O trabalho marca o retorno da banda irlandesa com um disco completo de inéditas após nove anos e faz parte das comemorações de seus 50 anos de carreira. Em entrevista exclusiva à 89 A Rádio Rock, o guitarrista The Edge revelou detalhes do processo criativo, das inspirações por trás das músicas e do conceito do álbum, que mistura espiritualidade, celebração e reflexões sobre o mundo atual.
Entre os destaques estão "The Mirror Maker", inspirada na cantora espanhola Rosalía, e "Torn", colaboração com Dolly Parton que ganhou um significado ainda mais especial após a morte da artista. The Edge também contou que utilizou uma guitarra com cordas que não troca há 20 anos e revelou que algumas composições começaram a ser desenvolvidas há cerca de uma década. O músico ainda explicou a relação do disco com os EPs 'Days Of Ash' e 'Easter Lily', lançados anteriormente, e como o U2 continua buscando novas sonoridades mesmo depois de cinco décadas de história.
Além do lançamento, o U2 prepara seu retorno ao Brasil em março de 2027, com quatro apresentações no Estádio MorumBIS, em São Paulo, nos dias 10, 12, 14 e 16. Durante a conversa, The Edge relembrou experiências marcantes no Carnaval brasileiro, incluindo a participação de Bono com Ivete Sangalo em 2006, e destacou a paixão dos fãs do país. Sobre a nova turnê, o guitarrista garantiu que a banda pretende encontrar um equilíbrio entre as músicas inéditas e os grandes sucessos que marcaram sua carreira, sem deixar os clássicos de fora do repertório.
The Edge deu uma entrevista a 89, feita pela Fernanda Soldateli:
Fernanda Soldateli: Gostaria de voltar a 2006, quando você e Bono estiveram no Carnaval da Bahia e Bono cantou "Vertigo" com Ivete Sangalo. Aquilo foi incrível! Quero saber quanto daquele Carnaval está presente em 'Carnaval De Luz'?
The Edge: Bom, nós estamos explorando e nos encantando com o Carnaval brasileiro há muito tempo. E, antes mesmo daquela ocasião, durante a turnê PopMart, colaboramos com uma das escolas de samba do Rio de Janeiro e a levamos ao palco para tocar conosco. Então, há muito tempo somos fascinados não apenas pela expressão do Carnaval, mas pelo próprio conceito da festa. Essa ideia de que, dentro de um contexto religioso, você pode celebrar e aproveitar os prazeres da vida e do corpo, por assim dizer. Na Irlanda, nós sempre nos sentimos meio injustiçados, porque, quando chegava o início da Quaresma, tudo o que recebíamos era um monte de panquecas. Aquela era a nossa versão do Carnaval! Não parecia muito justo. Por isso, o Carnaval nos fascina há bastante tempo. Naquela ocasião, foi realmente muito especial. Estávamos na Bahia com Quincy Jones e Gilberto Gil, e eles disseram: "Nós vamos mostrar o Carnaval para vocês". Então assistimos à festa de uma varanda, que era um lugar maravilhoso para ver todos os trios passando. A música era incrível. E então aconteceu aquele momento maravilhoso em que fomos convidados a participar. Bono disse: "Me dá o microfone!". Jogaram o microfone para ele, Bono pegou e começamos a cantar juntos. Foi muito divertido. Realmente uma experiência fantástica.
Fernanda Soldateli: Bono disse em uma entrevista que o título do álbum está em português. Isso é verdade? Porque espero que sim!
The Edge: Sim. Sinceramente, nossas experiências em Portugal foram muito importantes para nós. E, quando começamos a pensar nesta turnê, voltamos a uma ideia que já tínhamos há algum tempo. Acho que talvez essa ideia tenha surgido até mesmo na época de 'Achtung Baby', que era o Carnaval. Nós ficamos fascinados com a possibilidade de reunir esses dois lados diferentes da identidade do U2: essa busca espiritual e a celebração. E sentimos que este era um momento muito importante para lembrar às pessoas que existe muita coisa pela qual devemos ser gratos. Existe muita coisa para celebrar. Por mais que todos nós estejamos lidando diariamente com notícias muito difíceis, vindas de todos os cantos do mundo, é importante não sucumbir à tristeza, à depressão ou ao desânimo. É importante ter uma postura de resistência. E a melhor maneira de resistir, quando você recebe notícias ruins como essas, é reconhecê-las, mas depois celebrar as coisas boas. Então, essa é a nossa ambição para a turnê: que ela seja positiva diante de todas as coisas com as quais estamos lidando.
Fernanda Soldateli: Vocês estavam planejando fazer dois shows aqui em São Paulo, mas agora temos quatro datas, e os ingressos se esgotaram extremamente rápido. É verdade que o público brasileiro é diferente dos públicos de outros lugares do mundo?
The Edge: Sim, quero dizer, cada país é diferente, mas o Brasil é realmente muito especial. O público é muito apaixonado. As pessoas realmente vivem a música e a celebração. Isso é algo muito natural para vocês. Nós costumamos dizer que a Irlanda tem um espírito muito latino, mesmo estando no norte da Europa. Então, existe uma parte dos irlandeses que aspira a ser brasileira. Talvez nunca consigamos chegar lá. Certamente não vamos conseguir acompanhar vocês na dança, e não vamos conseguir acompanhar vocês em muitas outras coisas, mas vamos fazer o nosso melhor!
Fernanda Soldateli: Falando sobre os shows, li uma entrevista em que você disse que gostaria de tocar mais músicas do novo álbum, 'Carnaval De Luz', enquanto Bono prefere tocar mais sucessos antigos. Então, quem está ganhando essa briga? O que podemos esperar do setlist?
The Edge: Ah, eu queria que fosse simples assim! Estamos todos tentando encontrar aquele equilíbrio perfeito entre as músicas antigas e as novas. E, em diferentes momentos, eu penso: bom, nós acabamos de lançar dois trabalhos e, na verdade, até novembro, teremos lançado efetivamente 24 músicas nesse período de um ano. Então, temos uma quantidade enorme de material para escolher. Mas também sabemos que as pessoas vão aos shows para ouvir as grandes músicas do U2. Por isso, com certeza vamos garantir que nenhum daqueles clássicos fique de fora. Então, vai ser difícil encontrar esse equilíbrio. Mas, no fim das contas, as músicas é que mandam. São elas que nos dizem o que fazer. Vamos ouvir e sentir quais são as músicas certas para tocar.
Fernanda Soldateli: No calendário litúrgico, o Carnaval acontece antes da Quaresma e da Páscoa. Mas, no caso dos lançamentos de vocês, os EPs relacionados a esses períodos vieram antes do Carnaval. Então, essa ordem foi invertida de propósito?
The Edge: Sim. Foi quase como se o primeiro EP tivesse se apresentado como algo que precisávamos lançar imediatamente, porque as músicas eram muito atuais, estavam muito conectadas àquele momento. Então, nós pensamos se deveríamos lançar apenas uma música. Depois pensamos: não, vamos lançar todas essas músicas juntas. E então veio o segundo EP, que, no calendário eclesiástico, vem depois. Você tem a Quaresma e depois a Páscoa. Então simplesmente dissemos: "Vamos lançar esse segundo EP". E, dessa forma, vamos efetivamente começar a contar a nossa história pelo final e depois voltar ao começo. Então o álbum vai chegar no fim dessa sequência, culminando a história, mas, na nossa cabeça, esse é o começo.
Fernanda Soldateli: Você disse que este é o primeiro disco do U2 que utiliza cordas flatwound. O que essas cordas têm de diferente das cordas normais?
The Edge: Bom, para mim, esses pequenos detalhes são coisas sobre as quais raramente falo, porque acho que passam despercebidas pela maioria das pessoas. Não são tão interessantes para elas. Mas eu percebo que algumas guitarras antigas, assim como alguns amplificadores antigos e algumas cordas antigas, como essas cordas flatwound, têm algo realmente único e especial. Essa guitarra, por exemplo, está comigo há 20 anos e, durante todo esse tempo, eu nunca troquei as cordas. São cordas flatwound, que geralmente são utilizadas por músicos de jazz. Elas têm um timbre muito quente, muito diferente daquele que eu normalmente uso. Então, fui atraído por elas justamente porque eram diferentes. E estou sempre tentando encontrar alguma coisa nova para fazer com a guitarra elétrica. Eu fico nervoso quando as coisas começam a soar familiares demais. Mas, quando encontro um som novo para explorar, fico muito empolgado. Então, acho que essas cordas flatwound aparecem em "The Mirror Maker", que é uma das faixas do álbum.
Fernanda Soldateli: "The Mirror Maker" é incrível! Tive a oportunidade de ouvir o álbum antes da entrevista e sei que é uma música sobre Rosalía. Quero saber como é escrever uma música sobre uma pessoa que está viva e de que maneira ela inspirou vocês?
The Edge: Bom, ela é uma artista realmente fascinante. E, quando começamos a escrever essa música, ela ainda não era tão conhecida. Mas hoje ela é realmente muito conhecida e bem-sucedida. Isso foi algo que não imaginávamos que aconteceria. Mas acho que ela é interessante para nós porque sentimos que existe uma afinidade artística entre nós. Ela está sempre procurando alguma coisa nova para trazer à música contemporânea. Assim como ela, nós sempre tentamos incorporar influências das artes plásticas e de outras formas musicais ao nosso trabalho. Ela traz ideias do flamenco, ideias da ópera, traz a dança moderna. Todos os tipos de pensamentos e ideias diferentes, reunindo tudo isso para tornar a música pop contemporânea mais diversa, mais variada e dar a ela mais profundidade. E nós adoramos isso nela. E ela também não tem receio, eu diria, de fazer referências a elementos espirituais e históricos, algo que nós também fazemos. Existe o fascínio dela pelos santos e pelo catolicismo. Nós também estamos abertos a tudo isso.
Fernanda Soldateli: E existe alguma coisa em "The Mirror Maker" que vocês tenham pegado emprestada do universo artístico dela?
The Edge: Não exatamente. É mais uma questão de termos sido inspirados por ela. E a ideia da letra é que existem alguns artistas que ficam olhando para o espelho. Mas existem aqueles que atravessam o espelho, como se ele fosse um portal. E é assim que pensamos em Rosalía: como uma artista que está disposta a imaginar uma paisagem inteiramente nova. Ela não se contenta apenas com aquilo que está evidente, mas consegue imaginar alguma coisa além daquilo. E nós achamos isso fascinante.
Fernanda Soldateli: Essa música e outras quatro, se não me engano, foram compostas por você junto com Bono. Quero saber como funciona esse processo. Vocês trabalham juntos ou separadamente?
The Edge: Nós geralmente trabalhamos juntos, na mesma sala. E, na maior parte do tempo, sou o cara que fica ali incentivando Bono, talvez ajudando a editar alguma coisa e dizendo: "Essa frase é ótima, usa essa". Mas, de vez em quando, eu também contribuo diretamente. E, sabe, nós fazemos isso um pelo outro. Nós nos encorajamos. Estamos ali para ouvir e servir de referência uns para os outros. Bono faz o mesmo comigo nas minhas partes de guitarra. Eu faço o mesmo com Adam e Larry nas partes de baixo e bateria deles. E é isso que significa estar em uma banda de verdade.
Fernanda Soldateli: E essas cinco músicas que você compôs com Bono têm trechos em espanhol. Isso foi coincidência ou você também teve participação nessa escolha?
The Edge: Bom, a primeira música que teve uma referência em espanhol foi "Street Of Dreams", com "Calle De Sueños". E foi algo de que eu simplesmente gostei. Eu adorava a sonoridade daquelas palavras dentro da música. E, para mim, o espanhol e as línguas latinas são como as línguas da liberdade. E penso em todos os tipos de pessoas que vêm da cultura latina. Penso na teologia da libertação. Penso em alguns revolucionários que estavam dispostos a tentar apresentar um novo caminho, um conjunto de valores novo, melhor e mais desenvolvido. Então, para mim, é mais do que uma decoração. Na verdade, é uma associação com um espírito de liberdade e imaginação que nós simplesmente adoramos.
Fernanda Soldateli: Também temos a participação de Dolly Parton em "Torn", que é uma música linda. É uma canção que ela começou a fazer e, quando estava gravando, já estava doente. Depois que ela faleceu, em agosto, quero saber como é para vocês ouvir essa música agora?
The Edge: Sim, bom, isso coloca a música em um contexto completamente diferente. Porque ela deixou de ser apenas uma bela música de Dolly Parton e uma colaboração para se transformar em uma espécie de últimas palavras de Dolly Parton para o mundo. E nós não tínhamos ideia, naquele momento, de que as coisas acabariam dessa maneira. Foi um choque. Um choque muito grande para nós quando soubemos que ela havia falecido. Nós tínhamos ouvido que ela estava lidando com alguns problemas médicos, mas estávamos convencidos de que eram coisas que ela conseguiria superar. Mas, infelizmente, não foi o que aconteceu. Então, estamos tristes, completamente tomados pelo luto pela perda dela. E agora estamos tentando descobrir qual é a maneira certa de homenageá-la no lançamento dessa música. Não queremos deixar que isso passe despercebido como uma parte importante do trabalho dela. E acho que é uma ótima música para este momento. Sabe, é uma canção que tem uma espécie de súplica, quase um lamento, um lamento irlandês, pela coesão social e pela união que tínhamos e que parecemos ter perdido, em um mundo no qual tudo está tão dividido. E acho que, vindo de Dolly, que era tão amada por pessoas de todos os setores da sociedade, isso tem um significado especial. Você poderia ser um conservador religioso, alguém que frequenta a igreja, ou poderia ser um liberal progressista, talvez alguém da comunidade LGBT. Todo mundo amava Dolly Parton. Então, sentimos que essa música pode funcionar como uma mensagem de encorajamento e, esperamos, de união.
Fernanda Soldateli: É uma música linda. Acho que já é uma homenagem a ela, com certeza. E, para terminar, li que Jacknife Lee disse que vocês mantêm dois quadros brancos no estúdio. Um deles contém o álbum no qual estão trabalhando, e o outro tem mais cinco ideias de projetos, incluindo álbuns acústicos e não acústicos. Então, o que podemos esperar do U2 no futuro?
The Edge: Bom, nós sempre dizemos que a música é quem manda, ou que as canções são quem mandam. Então, vamos ver. Sabe, algumas das músicas que acabaram entrando neste álbum... Eu comecei a fazer as primeiras demos de algumas dessas músicas há uns dez anos. E elas estavam ali, na minha coleção de pensamentos e ideias. Mas, de repente, agora elas conseguiram se concretizar. Então, eu diria que temos muito material, seja terminado ou pela metade, com o qual estamos empolgados. Quando vamos decidir que é o momento certo para lançar essas coisas, ainda não sabemos. Não temos nenhum plano definido. Então, vamos simplesmente ver aonde os próximos anos nos levam e, depois, tomar uma decisão.
Fernanda Soldateli: Muito obrigada pelo seu tempo! Foi um prazer conversar com você. Tenho certeza de que vocês farão um grande show aqui no Brasil. Estou muito animada para vê-los!
The Edge: Sim, estamos muito animados para voltar ao Brasil. É um dos nossos lugares favoritos no mundo para tocar. E muito obrigado. Foi um verdadeiro prazer conversar com você.
