O Globo
O U2 bateu ponto na sua cruzada pelos direitos humanos ao lançar de surpresa o EP 'Days Of Ash', sua primeira coletânea de músicas autorais desde 2017. São seis faixas que versam sobre guerra e paz, homenageando vítimas de conflitos violentos mundo afora. Embora o trabalho tenha chegado sem aviso, o teor de protesto das canções não é surpresa para ninguém. Desde 'War' (1983), um dos melhores discos da banda irlandesa, a caneta de Bono sempre foi uma espécie de megafone em prol dos fracos e oprimidos, e é ótimo que assim seja. A arte sempre esteve mesmo a serviço da manifestação sociopolítica. Tudo certo. Mas canções de protesto sempre podem soar piegas, é um risco que se corre, ainda que seja marca registrada de seus autores a luta sincera por um mundo melhor. Quando não acompanhadas de melodias criativas, boas sacadas sonoras, quando priorizam o discurso deixando a inventividade musical de lado, viram chatice panfletária. É o que acontece aqui, em alguma medida, com 'Days Of Ash'.
Ninguém duvida das boas intenções de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. O mundo agradece. É louvável, aliás, a coerência do grupo que sempre se posicionou do lado certo da História — ainda que certo, muitas vezes, seja um conceito relativo. Papo para outra hora. Fato é que, depois de quase uma década sem músicas novas, vá lá, talvez os fãs merecessem mais do ponto de vista melódico. 'Days Of Ash' não empolga. A boa notícia é que a própria banda avisou, paralelamente ao lançamento do EP, que um novo álbum está por vir, ainda este ano. Mas os protestos "não podiam esperar", disse Bono em comunicado no site oficial do U2. "São músicas que tinham pressa para chegar ao mundo, canções de desafio e consternação", escreveu.
A coisa até começa muito bem com a ótima "American Obituary", primeira faixa do EP. Foi dedicada a Renee Good, americana mãe de três filhos morta por agentes do ICE, a truculenta Agência de Imigração dos Estados Unidos no governo Trump. Está lá o DNA daquele U2 pós-punk, enérgico, das guitarradas expansivas com o selo The Edge de preenchimento sonoro, lance fino para ouvir com um bom fone.
Mas tudo já desanda em "The Tears Of Things", uma crítica ao fundamentalismo religioso inspirada em um livro do frei franciscano Richard Rohr, onde Bono imagina um diálogo entre "Davi", de Michelangelo, e o próprio artista. É lenta, melada, morosa, e tem recursos cafonas, como, lá pelas tantas, as vozes duplicadas que soam como robôs. "Song Of The Future", a terceira do álbum, é um tributo a Sarina Esmailzadeh, adolescente de 16 anos que foi morta a pauladas pelas forças de segurança iranianas, em 2022. É chicletinho de rádio, à la Coldplay, não faz feio, mas passa batida.
Pausa para "Wildpeace", um poema do poeta israelense Yehuda Amichai (1924-2000) que, lido pela cantora Adeola, se comporta como um interlúdio para o ouvinte respirar. Respiramos, e chegamos em "One Life At A Time", quinta faixa do EP, feita em homenagem ao ativista e professor palestino Awdah Hathaleen, morto por um colono israelense na Cisjordânia em 2025. Ninguém vai poder julgar aquele que disser que é a música mais chata já lançada pelo U2.
Aí vem "Yours Eternally", última faixa do EP, com participação do músico britânico Ed Sheeran e de Taras Topolia, soldado ucraniano que serviu na guerra contra a Rússia e que é músico na banda Antytila. Miraram num hino de resistência da Ucrânia contra os russos, acertaram num jingle tosco de propaganda de paz entre os povos, todos de mãos dadas, camisas brancas, flores e algum QR code no canto da tela da TV. Outra chatice previsível que não pede repeat.
Bono e companhia podem estar dormindo com a consciência limpa, mas os fãs mereciam mais.
Folha De São Paulo
Quem já foi messias nunca deixa de carregar esse fardo. Nas duas últimas décadas do século passado, os irlandeses do U2 criaram um rock politizado tão amplamente aceito que credenciou a banda a tentar se tornar a maior do planeta.
Nunca conseguiu atingir essa condição, mas, apesar da produção mais recente de discos genéricos, manteve a aura de ativismo, sempre se posicionando diante do xadrez geopolítico global. Durante um bom tempo, o vocalista Bono não desgrudava dos líderes mundiais que pareciam estar do lado certo do jogo.
Assim, estava causando estranheza o silêncio do U2 diante de um mundo em desalento com Donald Trump, Ucrânia, Gaza e outras desgraças. Chega então 'Days Of Ash', um EP com seis faixas inéditas no qual o U2 parece querer apagar a fase de inércia com canções explicitamente políticas.
O lançamento enlouquece milhões de fãs, mas quem deixar de lado a alegria pelo retorno para escutar o EP com um mínimo de senso crítico pode acabar concordando — o disquinho tem apenas uma música boa, "The Tears Of Things". É pouco para a quase maior banda do planeta.
O conjunto de canções traz uma certa "rebeldia burocrática", dois conceitos que não funcionam bem juntos. Citando em várias faixas personagens reais como os soldados ucranianos enfrentando a invasão russa, os palestinos massacrados em Gaza e mártires na opressão feminina em lugares como Sudão e Irã, a banda fica presa na panfletagem cantada sobre músicas comportadas. E onde foi parar o rock?
Na teoria, a carga roqueira deveria vir forte na faixa de abertura, "American Obituary", cuja pretensa vocação para hino contra Trump se perde em jogos de palavras de Bono. "Eu amo você mais do que o ódio ama a guerra" é de um nível ginasiano.
Falando sobre a morte da americana Renée Nicole Good, assassinada no mês passado, em Minneapolis, pela polícia de imigração de Trump, a canção pode funcionar bem ao vivo. Mas é clichê, seguindo uma irritante cartilha de hits para grandes arenas que o U2 ajudou a criar.
O lançamento do EP se dá com seis videoclipes "Lyric Video", que exibem na tela a transcrição dos versos enquanto são cantados. A banda nunca aparece, então quem assiste é martelado por imagens conceituais. E o visual pode até piorar as coisas. No caso de "American Obituary", é constrangedor mostrar uma pomba branca presa em uma pequena gaiola. O público do U2 merece mais do que uma simbologia barata.
Exceção no EP, "The Tears Of Things" parte de uma ideia bem original e sabe desenvolvê-la de um jeito esperto. A letra é narrada por David de Michelangelo. A famosa estátua do início do século 16 se define como um menino que Michelangelo extraiu de um bloco de mármore e fica amedrontado diante do mundo. Uma balada singela, a única música do pacote que poderia estar em um bom álbum da banda sem fazer feio.
"Song Of The Future" e "One Life At A Time" são dois rocks frouxos, típicos da fase mais recente da banda, e seus videoclipes destacam ativistas assassinados por governos opressores. Já "Wildpeace" é fora da curva — uma curta faixa de "spoken word". A letra é um poema do israelense Yehuda Amichai, lido pela nigeriana Adeola. Belos versos, numa pausa das guitarras no EP.
Para fechar o disco, uma música de apelo pop e emocional. "Your Eternally" fala de soldados separados das famílias na guerra da Ucrânia. É perfeita para grandes arenas, com boa parte do vocal a cargo de Taras Topolia, cantor da banda ucraniana Antytila, que também participa do clipe. E tem mais um convidado na faixa: Ed Sheeran, para escancarar a vontade de soar pop.
As canções do EP fazem uma bagunça na proposta musical. O que une todas é a panfletagem política. Bono já deu entrevistas dizendo que o próximo álbum do grupo, talvez para o final do ano, será muito diferente, musicalmente falando.
Fica assim a sensação de que o U2 lançou 'Days Of Ash' para justificar a fama de ativismo da banda que andava um pouco na geladeira. Para quem não é fã de carteirinha, é mais uma curiosidade do que um disco arrebatador.
