The Journal (Irlanda)
Em entrevista à revista oficial do U2, Bono falou sobre as críticas que recebeu na Irlanda sobre suas declarações públicas a respeito do massacre em Gaza.
A conversa surge no momento em que o vocalista e letrista do U2 fala sobre "One Life At A Time", uma nova canção inspirada em Awdah Hathaleen, o ativista palestino assassinado a tiros por um colono israelense na Cisjordânia no ano passado.
Bono descreve Hathaleen como "um palestino extraordinário" que foi "assassinado na Cisjordânia por um colono israelense fundamentalista e violento".
O U2 lançou um EP de seis músicas com forte teor político, intitulado 'Days Of Ash'. As canções abordam situações violentas da nossa época, incluindo a violência letal de agentes do ICE em Minneapolis, o assassinato de manifestantes no Irã e a guerra na Ucrânia.
A banda também presta homenagem a Hathaleen, e Bono deu mais detalhes sobre a inspiração para a revista do U2, Propaganda.
Hathaleen, um professor de 31 anos, pai de três filhos e líder comunitário local, estava parado junto a uma cerca na cidade de Umm al-Khair quando foi atingido no peito por um tiro disparado por um colono israelense.
Um vídeo gravado da cena caótica parece mostrar Yinon Levi, que já havia sido sancionado pelos EUA e pelo Reino Unido por incitar a violência, atirando em Hathaleen. Testemunhas também afirmaram que Levi foi quem disparou o tiro fatal.
Umm al-Khair é uma das muitas comunidades palestinas na Cisjordânia ocupada por Israel, onde cerca de três milhões de palestinos vivem ao lado de aproximadamente 500 mil colonos israelenses.
Todos os assentamentos no território, ocupado desde 1967, são considerados ilegais sob o direito internacional.
O motivo pelo qual o assassinato de Hathaleen provocou uma onda de condenação internacional se deve ao documentário vencedor do Oscar, 'No Other Land', que narra a história da vida sob ocupação na Cisjordânia.
Em uma conversa sobre o tom das músicas do novo EP, Bono as descreve como "desafiadoras", acrescentando que se tratam "do momento em que gostaríamos de não estar, mas estamos".
"Outra faixa, "One Life At A Time", é nossa tentativa de oferecer uma bela melodia como, espero, uma espécie de bálsamo, inspirada por um palestino extraordinário", diz Bono.
"Awdah era pai de três filhos pequenos, professor, ativista comunitário e cineasta. Ele foi assassinado na Cisjordânia por um colono israelense fundamentalista e violento... esse colono era conhecido por aterrorizar comunidades palestinas e, até onde sei, não foi levado à justiça".
Ele acrescenta: "É horrível. Uma vida de cada vez é uma espécie de sugestão existencial: podemos mudar o mundo para melhor ou para pior... uma vida de cada vez".
A letra da música em si não menciona Hathaleen pelo nome, mas o videoclipe que a acompanha apresenta sua imagem em destaque.
As legendas na tela dizem que ele era um "ativista da não violência" e que "não houve justiça ou punição para seu assassino".
O videoclipe também apresenta os muros e torres de vigia que se tornaram símbolos da Cisjordânia, com um tanque de fabricação americana aparecendo perto do final.
As palavras Israel ou Palestina também não aparecem na música, o que a torna mais sutil para o ouvinte do que, por exemplo, a faixa principal do EP, "American Obituary".
Alguns críticos podem observar que a música opta por abordar a violência dos colonos na Cisjordânia e não o genocídio em Gaza.
Em uma declaração conjunta da banda em agosto passado, o U2 condenou o governo israelense por suas ações em Gaza, com Bono admitindo também ter "discutido o assunto".
Na entrevista à Propaganda, Bono é questionado diretamente sobre isso e sobre o que o entrevistador chama de "dificuldades" que tem enfrentado, "especialmente na Irlanda, por parte daqueles que acham que você não tem se manifestado o suficiente sobre o que está acontecendo em Gaza".
Em resposta, Bono disse: "Os irlandeses, em geral, não gostam de valentões... embora, é claro, em nossos esforços para combatê-los, às vezes possamos nos tornar valentões rapidamente... enquanto nos achamos superiores, podemos atropelar qualquer um que trilhe um caminho diferente para o mesmo lugar".
Ele acrescentou: "Eu nunca vi dessa forma. Quando se trata de direitos humanos e injustiça, se as pessoas estão trabalhando em causas diferentes das minhas, isso é bom, na minha opinião. Escrevi sobre Israel e Gaza, mas em termos de ações, tenho me concentrado nas coisas que conheço melhor. Como a destruição da USAID, as ameaças ao trabalho que fazemos na ONE e na (RED)".
ONE e (RED) são organizações criadas por Bono para combater a pobreza extrema e a AIDS, principalmente na África.
Mais adiante na entrevista, Bono volta a falar sobre Gaza, dizendo: "O estupro, o assassinato e o sequestro de israelenses em 7 de outubro foram atos malignos… Mas a autodefesa não justifica a brutalidade desenfreada da resposta de Netanyahu, comprovada pela morte de dezenas de milhares de palestinos inocentes".
Como Bono mencionou, até o momento ninguém foi acusado pelo assassinato de Hathaleen, mas o jornal israelense Haaretz noticiou na semana passada que um indiciamento contra Yinon Levi está sendo planejado.
