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domingo, 26 de julho de 2015

Depois da dor vem a raiva: entendendo "Volcano"


Bono fala no encarte de 'Songs Of Innocence': "Minha mãe morreu, assim como meu avô. Depois da dor vem a raiva .... a lava derretida que se transforma em pedra se puder ..... este tipo de incêndio no ventre não pode ser sustentado. Se você tiver sorte, ele queima. Antes de queimá-lo.."
Então em "Volcano" ele canta: "O mundo está girando rápido esta noite. Você pode se machucar tentando se segurar naquilo que você costumava ser. Eu estive em um estado selvagem. Você não quer saber, alguma coisa em você quer explodir. Eu estive fora na noite, eu estive fora de minha mente. Você mora aqui ou isto é um período de férias? Eu estou tão feliz que o passado já se foi. Você estava sozinho, mas agora não está mais sozinho. Você é rock' n roll."

O que está na letra da canção, é detalhado por Bono no livro U2 BY U2: "A minha mente estava acelerada, não por causa de drogas, mas por causa de toda a pressão relacionada a coisas que estavam para lá do meu alcance. A minha mãe morreu e, de repente, ficaram apenas três homens vivendo debaixo do mesmo teto. Não passava disso, deixou de ser um lar. Era apenas uma casa, com três homens se matando lentamente, não sabendo como reagir àquele sentimento de perda e descarregando uns nos outros. Eu era apenas um rapaz normal, numa família agora pouco normal, que tinha perdido o interesse por tudo, exceto pelas garotas e pela música.
O aproveitamento escolar foi pelo cano. Não tinha vontade de fazer nada. Não fazia ideia que se estava aproximando uma catástrofe, e houve alguns incidentes, como ter atacado um professor durante a aula.
A religião não me dizia nada. Olhava à minha volta, via pistas de que Deus devia existir, de que podia estar interessado em nós. E depois perdia a esperança outra vez.
Havia uma senhora muito bonita que ensinava religião, Sophie Shirley, e ela dizia coisas do gênero: “Sim, é um mundo em ruína, mas continua a ser lindo. As impressões digitais de Deus estão em todo o lado se as quisermos ver.” E ali ficava eu, na Dollymount Strand, olhando para o mar, observando as ondas, vislumbrando uma tempestade no horizonte, e me perguntando: “Quem escolheu a cor do céu? Quem é que faz a Terra girar a esta velocidade?”.
Eu tinha sonhos muito vivos, mesmo quando estava acordado. Achei que estava ficando maluco. Sentia-me sem esperanças. Pensei em suicídio. Pensava muito em tudo. Ainda fico admirado com a quantidade de coisas que cabem na cabeça de uma criança de 14 anos. Mas alguma coisa tinha de ceder e assim foi. A minha mente libertou-se. Literalmente, durante duas semanas me esqueci de tudo. Não me lembrava do que tinha feito.
Estava trabalhando num projeto para a disciplina de História e isso tornou-se muito importante para mim. Era sobre a rua mais antiga de Dublin, a Church Street, e eu tinha de andar pelas igrejas e pelas escolas entrevistando as pessoas que tinham vivido nessa rua. Depois, não encontrava os meus apontamentos dessas conversas e comecei a pensar se realmente tinha feito as entrevistas ou se tudo não passava de minha imaginação. Foi muito perturbador. Era uma espécie de descarga elétrica, células cerebrais sobrecarregadas. Virei uma série de cadeiras e mesas na sala de aula e tive um ataque de nervos.
Não sabia o que fazer. Entretanto, fui visitar o Jack Heaslip. Era um jovem e progressista professor liberal que, naquela altura, ainda não era crente. Eu confiava nele, por isso, resolvi entrar. Falei, seguramente, durante horas e horas. Parecia que me tinham dado corda. Falei, falei, falei...
Ele me enviou para uma psicóloga que vivia logo ao virar da esquina. Ela era excelente. Ela me ouvia. Começava sempre falando dos problemas dela. Me contava tudo sobre o filho. Só mais tarde é que percebi que tudo não passava de uma técnica. Foi muito inteligente em me fazer sair de mim mesmo para me pôr a pensar nela e nas outras pessoas.
Após algumas semanas, me disse: “Acho que você já não precisa voltar aqui. Você está ótimo. Teve uma espécie de trauma.”
Não creio que seja algo sem propósito para alguém que já passou por tantas situações perturbadoras. Não considero que seja assim tão estranho. Foi dessa forma que isso se manifestou em mim: uma expansão de sentimentos agressivos e ligeiramente violentos e uma série de experiências religiosas que se seguiram. Porque, no meio de todo este desespero, eu chamei por Deus. E descobri que, por vezes, mesmo em silêncio, Deus responde. A resposta pode não ser aquela que queremos ouvir, mas acabamos sempre por obter uma resposta, se formos verdadeiros e estivermos preparados para nos entregar. Eu tinha de seguir estes sentimentos, ou instintos, para ver onde me levariam.
Duas coisas aconteceram mais tarde e ambas salvaram a minha vida.
Lembro-me de ter visto uma garota, no seu primeiro dia de aulas, e de achar que ela parecia espanhola, morena com lábios de um vermelho ardente. Mais tarde, num daqueles dias em que a minha cabeça estava explodindo, o Reggie Manuel, o Cocker Spaniel, me levou para casa na sua moto. Olhei para trás e vi a mesma garota serena e misteriosa, tão simples, tão completamente desconhecedora de que era atraente. A fumaça que saía da moto criava a ilusão de que ela estava avançando por entre o nevoeiro. Tinha um ar tão sereno e, para alguém que não é de todo sereno, isso era a coisa mais atrativa do mundo. Assim era a Ali que, após algumas semanas, se tornou minha namorada e, após alguns anos, minha mulher.
Mais tarde, aconteceu outra coisa extraordinária. Juntei-me a uma banda....."
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